Viaje até o fim do mundo

Este é o conselho que posso agora, com propriedade, dar a todo mundo que tem interesse em conhecer lugares MUITO diferentes daqueles com os quais estamos acostumados. Vá para o fim do mundo!

Isso mesmo! A Tierra del Fin del Mundo fica na pontinha mais ao sul da Argentina, aquela ilhazinha lá embaixo no mapa! A viagem até lá é cheia de encantos, pois a região da Patagônia   nos permite conhecer  muitos animais em seu habitat natural, estar pertinho de uma das maiores geleiras do mundo e presenciar o esplendor de toda aquela imensidão azul se derretendo, comer muita carne de cordeiro e centoia (meu fruto do mar preferido!)  até dizer “chega” e descobrir uma riqueza paisagística incrível . Conheci essa terra numa viagem bem divertida de carro, no fim do ano passado, com meu esposo e um casal de amigos, e pude realizar um sonho antigo! Escrevo esse texto então, pra contar algumas singularidades que vivi por lá, pois talvez você também tenha o desejo de ir para o fim do mundo.

A minha primeira dica pra quem quer fazer essa aventura patagônica é: vá de carro!Isso mesmo, gente!

Eu sei que existem vôos até Ushuaia, cidade mais ao sul da Patagônia ( e destino final para quem quer se aventurar por lá) mas percorrer do norte da Argentina até lá sobre quatro rodas é conhecer alguns de seus encantos só acessíveis por via terrestre ! Percorremos cerca de 1400  quilômetros de El Calafate a Ushuaia, e paramos em Puerto Natales para um almoço e Punta Arenas para dormir. Pela estrada, muitas (muitas mesmo) lebres, gaivotas, flamingos, ovelhas ( de carinha branca e de carinha preta, lindinhas como a gente vê nos desenhos animados), raposas e aquele bichinho que parece uma alpaca, mas na verdade é uma vicunha. Acho que nem existe esse animal no Brasil, pelo menos eu nunca nem tinha ouvido falar! Isso sem contar o pôr do sol, um espetáculo ímpar.

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Já convenci você que carro é a melhor opção dentro da Patagônia né? Mas pra chegar até lá, fomos de avião até Buenos Aires, e de lá, pegamos um vôo para El Calafate, uma cidade  bem pequena no norte da Argentina famosa pelas várias atividades  no gelo e no meio das florestas. Não sou das mais aventureiras na natureza, mas fomos de barco até o Glaciar Perito Moreno, uma das paisagens mais maravilhosas que meus olhos já viram. Imagina um paredão de gelo de mais de 60 metros de altura e de um comprimento tão, mas tão grande, até onde a vista alcança … e muito branco, gente,  mas tão branco que em alguns locais se torna de um azul maravilhoso, contrastando com a vegetação verde e combinando com o lago e o céu azuis. De tempos em tempos, blocos enormes de gelo despencam lá de cima, num fenômeno maravilhoso da natureza.

A gente chega lá de barco e depois percorre ao redor de parte da geleira em umas passarelas gigantes, ótimas para fazer aquela foto bacana e ficar esperando o degelo acontecer. Conhecem aquele povo que aplaude o por do sol? Então, quando cai um pedaço da geleira,o povo vibra! 🙂

Por lá, existe também a  opção de andar sobre o glaciar, mas era bem mais caro e a gente se contentou em chegar pertinho de barco e pelas passarelas! Afinal, pagar mais caro pra fazer uma caminhada me pareceu um programa do estilo “pega – turista”, sabem?

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Eu gosto muito de visitar lugares onde consigo perceber a nossa pequenez, diante da imensidão natural que nos cerca. Perceber as maravilhas que Deus criou, com tanta perfeição e beleza, cada coisa no seu lugar, com o seu ritmo me ajuda a compreender que, de fato, somos só uma pecinha na engrenagem do mundo – e precisamos mesmo preserva-lo.

Claro que a primeira refeição nossa nesse lugar foi uma centoia inteira! Conhecido lá fora como king crab, esse fruto do mar parece um siri (ou caranguejo) laranja e bem grandão ( do tamanho de um frango, aliás, maior que um frango) e com uma carne bem suculenta, macia e saborosa. O processo de degustar essa iguaria também é divertido, pois ele chega à mesa cozido e temperado, mas ainda com a casca e cada um de nós tem que ir arrancando as patinhas  com umas tesouras próprias e cortando a casca do bicho pra tirar a carne. Com a nossa pouca habilidade para fazer isso, voam cascas do bicho pra todo lado! Acreditem, é delicioso e vale a pena o esforço, que vira uma diversão também!

(Update do meu esposo: nossa primeira refeição na Patagônia foi um cordeiro. Eu não gosto tanto dessa carne, então minha memória só ficou na deliciosa centoia, mas de fato, eles servem o cordeiro lá de um jeito diferente, na brasa, com o corpinho do bicho todo arreganhado, é gostoso – pra quem gosta).

Continuando… em El Calafate tem um lago bem bonitinho para se passear pela orla no fim de tarde. Alugamos uma casinha próxima a esse lago, e me surpreendi pois imaginei que a temperatura seria geladíssima por lá ( levei até casaco de neve, pra vocês terem uma idéia). Claro que faz um frio gelado, que fica mais intenso com o vento,  mas não é tão frio como a neve.

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Ah, uma dica bem importante e que fez toda a diferença em nosso passeio: a gente saiu do Brasil com o carro já reservado na locadora, pois dependendo da época, você pode  chegar à cidade e não ter mais nenhum veículo disponível, daí você vai ter que descer até Ushuaia de avião – e acredite, o caminho é maravilhoso e faz parte do passeio.

O caminho prevê uma passagem pelo Chile, mas na alfândega terrestre argentina não tinha nenhuma placa, gente, nadinha, então  passamos direto, como se nada houvera,  e percorremos alguns quilômetros até a alfândega chilena. Lá chegando, depois de pegar uma fila, descobrimos que faltava o carimbo de saída das terras argentinas em nosso passaporte. Dei risada, viu? Como assim querer entrar em um país sem ter saído do outro? Pois é, coisas que você não faz todo dia!  Voltamos até o posto argentino, carimbamos tudo e entramos no Chile. Dormimos em Punta Arenas, uma cidade chilena sem muitos atrativos, que nos pareceu mais um local de parada mesmo.

Para chegar até Ushuaia, atravessamos com o carro em uma balsa e nos hospedamos em um chalé no meio de uma floresta que parecia uma casinha de boneca! O lugar era tão bacana que fizemos nosso próprio churrasco com carnes de lá, capitaneado pelo amigo gaúcho (incluindo a famosa morcilla, feita de sangue de porco, tipo o chouriço mineiro mas bem mais forte) . Era 30 de novembro, Dia de Ação de Graças.

Falando dos passeios por lá: navegamos pelo Canal de Beagle, onde o viajante naturalista Charles Darwin fez suas expedições a dois séculos atrás, e pudemos ver de pertinho dezenas de pinguins se divertindo nas águas geladas, além de focas e leões marinhos gigantes.

Sabe outra coisa interessante? Ushuaia é uma zona franca, então os produtos teoricamente são mais baratos, pois não tem impostos. Na rua principal do centro da cidade, inclusive, tem um free-shop e diversas lojas de marcas famosas de roupas, sapatos e acessórios, tal como vemos nos aeroportos. Eu disse teoricamente, porque na prática, não considerei que nada valesse a pena! O dólar, na época em que viajamos, não estava muito atrativo, e sim cotado em valor bem alto.Em Ushuaia também funcionava a prisão argentina mais isolada do continente sul americano. Atualmente, foi transformada em um museu. Não visitei, por considerar que o clima lá não seria muito legal, então só trouxe uma camisetinha com listras em amarelo e azul, no modelo do antigo uniforme dos presidiários.

Um outro passeio bem gostoso foi a trilha do Parque Nacional Terra do Fogo. Você tem uma visão linda da floresta de um lado, o lago de outro e as geleiras ao fundo, que compõem uma paisagem digna de cinema. Claro que eu dei vexame: fui com um calçado inapropriado e levei um enorme tombo, então, na dúvida, tenha sempre aquelas botinas de expedição, (meio Indiana Jones) consigo.

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Antes de voltar ao Brasil, dez dias depois do início da viagem, devolvemos o carro alugado em Ushuaia mesmo, sem ter que fazer todo o percurso de volta por via terrestre.Não que a gente não quisesse, mas as férias tem limites – e o cartão de crédito, também.

Eu fico pensando que, como casal, é importante fazer viagens juntos, a dois,  e também ter amigos animados e que topem aventuras como esta. O passeio pode ficar bem divertido, desde que se combine bem o que será feito, e se planeje um roteiro que agrade a todos.

A viagem vale cada centavo investido, pois você volta outra pessoa depois de se aventurar até o fim do mundo. Meu esposo e eu  planejamos bastante para fazer essa viagem, e pra nós, foi a realização de um sonho antigo! Eu acredito que sonhos guardados nos dão uma motivação extra na vida. A gente  vai vivendo com eles na memória, e quando se consegue realizar, o momento tem um gosto especial demais, né?  Meu esposo e eu desejávamos fazer esse passeio na lua de mel, mas a grana quando a gente vai casar nem sempre é abundante, então a gente foi pra Buenos Aires e se divertiu  muito por lá.

Tanto que, na volta da Patagônia, fizemos uma parada pela capital portenha e pudemos reviver aquele cenário que foi tão especial pra gente, recém-casados.  Mas as dicas da capital argentina eu conto em um próximo texto, vale?

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Crédito das fotos: Deivson Rayner (exceto a nossa, by Daniel Gazineu)

4 comentários sobre “Viaje até o fim do mundo

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