O amor conjugal e seus mistérios inalcançáveis

“Ao ler aquelas linhas, fui tomada de uma emoção que não se explicava. Era como se naquele momento eu houvesse compreendido a força do amor conjugal que prometemos em fidelidade no dia do sacramento do matrimônio, mas sem sequer compreender uma fagulha do seu real significado”

Sabe aquele autor que você sempre ouve falar muito bem e que, de maneira recorrente, é citado nos livros e artigos que costuma ler? Pois é. Chega uma hora em que a gente toma uma decisão: eu preciso saber mais e ir direto na fonte para compreender melhor de onde vem tanta riqueza, tanta beleza e tanto mistério em seus pensamentos, teses e ideias acerca da vida e da complexidade humana. Refiro-me ao médico psiquiatra Viktor Frankl (1905-1907), criador da logoterapia, que explora o sentido existencial do indivíduo e a dimensão espiritual da existência. Não vou me ater aos princípios da sua corrente psicoterápica, até porque não sou psicóloga. Mas preciso gritar (perdão pela força da palavra, não encontrei outra!) sobre a parte do seu livro “Em Busca de Sentido” que me levou às lágrimas e ao verdadeiro entendimento do que é o amor conjugal.

Antes, porém, deixe-me explicar quem é o autor e sobre o que o livro se trata. Viktor Frankl nasceu em Viena e casou-se em 1941. Em setembro de 1942, ele, sua mulher grávida, um irmão e os pais foram deportados para diferentes campos de concentração. Depois de 3 anos vivendo sobre a “identidade Prisioneiro nº 119.104”, Viktor Frankl volta para Viena, onde descobre que sua esposa, mãe e irmão foram assassinados em Auschwitz.

E foi justamente todo o terror que viveu no campo de concentração, a maneira como enfrentou o sofrimento na sua condição mais deplorável e suas observações e anotações como médico que originaram o livro “Em Busca de Sentido”. Uma obra que até o último minuto do segundo tempo seria publicada “sem autoria”, porque não era desejo do autor se beneficiar dos relatos que trouxera em sua obra. Essa experiência pessoal será marcante em sua obra terapêutica e em seus escritos, uma vez que este homem foi capaz de manter, mesmo no horror de um campo de concentração, a liberdade do espírito.

“Em Busca de Sentido” é daqueles livros que a gente lê numa sentada, quer dizer, para quem não tem três crianças em casa, mas quero reforçar que ler este livro é como ver um filme. Somos transportados para as cenas do livro: impactantes, sórdidas, deploráveis, que ferem a dignidade humana, mas é, também, viver a experiência de contemplar o ser humano na sua complexidade e na sua beleza. Não obstante várias partes do livro que poderia citar aqui, quero me ater ao momento em que Frankl fala do amor a sua esposa. É tão lindo que não há como contar, senão transcrevendo:

Quando nada mais resta

“Enquanto avançamos aos tropeços, quilômetros a fio, vadeando pela neve ou resvalando no gelo, constantemente nos apoiamos um no outro, erguendo-nos e arrastando-nos mutuamente. Nenhum de nós pronuncia uma palavra mais, mas sabemos neste momento que cada um ainda só pensa em sua mulher (…) Meu espírito está tomado daquela figura à qual ele se agarra com uma fantasia incrivelmente viva, que eu jamais conhecera antes na vida normal. Converso com minha esposa. Ouço-a responder, vejo-a sorrindo, vejo seu olhar como que a exigir e a animar ao mesmo tempo e – tanto faz se é real ou não a sua presença – seu olhar agora brilha com mais intensidade que o sol que está nascendo. Um pensamento me sacode. É a primeira vez na vida que experimento a verdade daquilo que tantos pensadores ressaltaram como a quintessência da sabedoria, por tantos poetas cantada: a verdade de que o amor é, de certa forma, o bem último e supremo que pode ser alcançado pela existência humana. Compreendo agora as coisas últimas e extremas que podem ser expressas em pensamento, poesia – em fé humana: a redenção pelo amor e no amor! Passo a compreender que a pessoa, mesmo que nada mais lhe reste neste mundo, pode tornar-se bem-aventurada – ainda que somente por alguns momentos – entregando-se interiormente à imagem da pessoa amada. (…) A minha frente um companheiro cai por terra, e os que vão atrás dele também caem. Num instante o guarda está lá e usa seu chicote sobre eles. Por alguns segundos se interrompe minha vida contemplativa (…). Mas em um abrir e fechar de olhos eleva-se novamente minha alma, salva-se mais uma vez do aquém, da existência prisioneira, para um além que retoma mais uma vez o diálogo com o ente querido: Eu pergunto – ela responde; ela pergunta – eu respondo. (…) Meu espírito ainda se apega à imagem da pessoa amada. Continuo falando com ela, e ela continua falando comigo. De repente me dou conta: nem sei se minha esposa ainda vive! Naquele momento fico sabendo que o amor pouco tem a ver com a existência física de uma pessoa. Ele está ligado a tal ponto à essência espiritual da pessoa amada, a seu “ser assim” (nas palavras dos filósofos) que a sua “presença” e seu “estar aqui comigo” podem ser reais sem sua existência física em si e independentemente de seu estar com vida. Eu não sabia, nem poderia ou precisaria saber, se a pessoa amada estava viva.”

Ao ler aquelas linhas, fui tomada de uma emoção que não se explicava. Era como se naquele momento eu houvesse compreendido a força do amor conjugal que prometemos em fidelidade no dia do sacramento do matrimônio, mas sem sequer compreender uma fagulha do seu real significado. Fiquei pensando nos casais de velhinhos que – depois de uma vida inteira juntos e não mais conseguindo viver separados – parecem apressar a vontade de partir quando seu cônjuge parte primeiro. Pensei ainda na mulher ou no homem viúvo precocemente que sozinho tem pela frente a árdua tarefa de educar os filhos. Quanto mistério encontramos no amor conjugal, alguns deles inalcançáveis.

Talvez, seja uma fagulha desse mistério que o casal Maria da Penha de 50 anos e Arion Rodrigues de 40 anos conseguiram compreender após viverem 12 anos juntos e terem suas vidas marcadas. Ela, há 15 anos, luta contra um câncer de pele raro que já originou 11 cirurgias plásticas e vive numa Casa de Acolhida. Ele, há 1 ano e 9 meses, mora no Hospital Geral de Palmas, depois de sofrer um acidente que o deixou tetraplégico e com graves sequelas. Foi em fevereiro deste ano que Arion, conseguindo se expressar e após um sonho, pediu a mão da mulher em casamento. Compreendendo a gravidade de saúde do noivo, vários profissionais se mobilizaram e a cerimônia aconteceu na capela do hospital, dois dias após o pedido, com direito a música, fotógrafo, vestido de noiva, maquiagem da noiva, corte de cabelo e barba do noivo, bênção das alianças, a presença de um pastor e da ilustre dama de honra: Ana Caroline de 11 anos, filha do casal. Arion entrou na maca, completamente monitorado e com balão de oxigênio. Pelas imagens divulgadas na internet, apenas um olhar parado. O que estaria pensando?

As imagens são fortes, a história ainda mais. Desde que as vi e que li a obra de Viktor Frankl,  fico a cantar mentalmente os versos de Ivan Lins na belíssima canção Iluminados.

“O amor tem feito coisas que até mesmo Deus duvida. Já curou desenganados, já fechou tanta ferida. O amor junta os pedaços quando um coração se quebra. Mesmo que seja de aço, mesmo que seja de pedra, fica tão cicatrizado que ninguém diz que é colado. Foi assim que fez em mim. Foi assim que fez em nós: esse Amor Iluminado.”

E quem ousaria discordar de amores assim?

Ivna Sá para Muitas MariasIvna Sá
Casada, mãe de três crianças, autora e professora universitária, é fotógrafa de famílias há 10 anos, profissão que descobriu com o nascimento da primeira filha. Há dois anos se dedica ao universo feminino com a criação da marca Ivna Sá Para Mulheres. Além de fotografar mulheres de diversas idades, palestra sobre a mulher contemporânea numa abordagem social, antropológica e cristã. Gosta de gente, pão de queijo, Atlético Mineiro e uma boa prosa.

Muitas Marias apresenta artigos originais sobre o cotidiano feminino. Saiba como enviar seu texto clicando aqui ou escreva para  contato@muitasmarias.com

9 comentários sobre “O amor conjugal e seus mistérios inalcançáveis

  1. Olá Ivna quero agradecer pelas suas palavras e por me recordar essa passagem do livro que realmente quando li me fez refletir o amor a minha esposa!!

    Parabéns e um grande abraço

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  2. […] Naquele momento fico sabendo que o amor pouco tem a ver com a existência física de uma pessoa. Ele está ligado a tal ponto à essência espiritual da pessoa amada […]
    Faço do autor minhas palavras.
    Sua reflexão Ivna, nos faz ver além de qualquer entendimento carnal… apenas de alma. Parabéns!

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