Mulher, o que e quem definem você?

Nessa semana em que os olhos do mundo inteiro estão voltados para nós, MULHERES, desejei escrever sobre tantos assuntos, contar algumas experiências que pudessem nos inspirar e, dentre tantos pensamentos e ideias, ocorreu-me escrever sobre a nossa identidade. A minha vida é rodeada de mulheres por todos os lados: sou filha, mãe, irmã, tia, madrinha, amiga provavelmente como você que lê esse texto. Mas, além desses papéis, ainda trabalho diariamente com mulheres. Fotografo gestantes e mamães com seus filhos já nascidos há 11 anos e mulheres – fora do contexto da maternidade – há 3 anos. São mais de três mil mulheres fotografadas por mim e minha equipe e, a cada ensaio, tenho também a oportunidade de observar, aprender, refletir e estudar o universo feminino com suas contradições, seus mistérios e fascínios.

Mulher é detalhista (às vezes, até demais). Mulher é cuidadora, é estressada, é culpada, é desconfiada, é corajosa, é extremamente sensível, sente inveja, sente dor, sente abandono, sente falta de carinho e também de ser cuidada. Mulher é exigente, quer as coisas nos seus devidos lugares, precisa discutir as relações, tem necessidade de amigas com quem pode dividir seus sentimentos mais profundos. Mulher é bicho complicado que muda de estação sem avisar para o parceiro e para quem está por perto. É capaz de ser verão, outono, inverno e primavera em um mesmo dia. Mulher é emoção à flor da pele.

Mas, para além de tudo isso, há um detalhe muito importante: mulher vive no mundo da fantasia ou do conto de fadas. Acredita em potes mágicos que vão lhe devolver a juventude, em dietas milagrosas que vão fazê-la emagrecer como fez com a amiga (que tomou remédio, mas não contou essa parte!). No fundo ela acredita que se fizer essas coisas e tantas outras ela não vai envelhecer, ou melhor, que a idade para ela ainda está longe de chegar. Eu, acabada? Imagina! Acabada está ela!!! Basta pegar uma fotografia mais antiga e lá está a mulher comentando das outras mulheres: nossa, como fulana se acabou!

A grande verdade é que somos bombardeadas por todos os lados e porque temos um coração gigante aceitamos tudo, inclusive aquilo que é fantasia. E nessa loucura de aceitar tantas tendências, padrões, imposições, pressões que, muitas vezes, nós mesmas colocamos sobre nós, vamos perdendo a nossa identidade, vamos deixando de ser quem realmente somos para nos tornar aquilo que projetamos que os outros esperam de nós. E a pergunta que não quer se calar é: quem são os outros e o que nós achamos que eles esperam de nós?

Quando uma mulher me procura no estúdio para fazer um book fotográfico, fora do contexto da maternidade, a minha primeira pergunta é: por que você deseja fazer um ensaio? Segundo alguns fotógrafos renomados com quem inclusive já fiz cursos, uma mulher faz um book geralmente quando colocou silicone ou fez alguma plástica e quando termina um relacionamento. Ou seja, nos dois exemplos, a fotografia é para a outra (dizem as más línguas que uma mulher se veste para outra mulher) ou para o outro (que o parceiro veja o que ele perdeu!).

Por acreditar que a mulher é muito mais do que um silicone e que o fim de um relacionamento não é o que a define como mulher, na minha profissão, muito raramente, eu atraio mulheres que desejam ser fotografadas por esses motivos. Ao contrário, a grande maioria tem um motivo muito nobre: celebrar a vida mesmo no tratamento contra um câncer; fazer um ensaio em homenagem ao filho único que morreu aos 12 anos de idade; marcar uma idade específica (30/40/50/80 e até 100); mudar o olhar que tem sobre si mesma; encarar o desafio e o desejo guardado de fazer um ensaio mesmo sendo uma mulher cadeirante que pesa apenas 25 kilos; ou ainda, fazer um ensaio fotográfico mesmo sendo cega porque já dizia o poeta “o essencial é invisível aos olhos, só se vê bem com coração.”

Sou agraciada por conhecer e participar da vida dessas mulheres. Algumas delas deixam marcas profundas na minha alma porque geram um sentido diferente na minha profissão e promovem o que eu chamo de zoom na minha vocação. Ao fazer esse zoom eu enxergo detalhes preciosos que confirmam a essência daquilo que desejo ser como mulher e daquilo que desejo promover a todas as mulheres que fotografo. Minha experiência mais recente foi com uma jovem de 23 anos, deficiente visual. Perdeu a visão muito criança e embora tenha feito três cirurgias pelo deslocamento de retina, não houve sucesso. Rafaela fez seu ensaio com tudo que uma mulher vidente tem direito. As fotos ficaram lindíssimas e mais lindo ainda foi o dia em que, no meu estúdio, eu presenciei a cena em que ela recebeu as suas fotos. Essa imagem nunca mais sairá de minha memória. Sabe por quê? Porque ela, apesar de cega, foi capaz de se enxergar de modo muito mais pleno do que muitas de nós que, com perfeita visão, não sabem ou não dão conta de se olharem. Rafaela não apenas se olhou, se enxergou. Ela se contemplou…

Eu sei que você deve estar curioso(a) para saber como a Rafaela viu suas fotos. Essa história é linda e longa demais para contar aqui porque envolve nada mais, nada menos, que sete profissionais, muitos detalhes e muita emoção. Eu prometo que esse será o tema do artigo de abril. Por hora fica apenas a inquietação: o que e quem definem você? Já parou para pensar sobre isso? Oxalá não sejam os papéis que exerce, aquilo que veste, que compra, que usa, que mostra ou que posta. Que neste Dia Internacional da Mulher, eu e você, celebremos não o que temos, mas aquilo que somos. FELIZ DIA DA MULHER!

Ivna Sá para Muitas MariasIvna Sá
Casada, mãe de três crianças, autora e professora universitária, é fotógrafa de famílias há 10 anos, profissão que descobriu com o nascimento da primeira filha. Há dois anos se dedica ao universo feminino com a criação da marca Ivna Sá Para Mulheres. Além de fotografar mulheres de diversas idades, palestra sobre a mulher contemporânea numa abordagem social, antropológica e cristã. Gosta de gente, pão de queijo, Atlético Mineiro e uma boa prosa.

Muitas Marias apresenta artigos originais sobre o cotidiano feminino. Saiba como enviar seu texto clicando aqui ou escreva para  contato@muitasmarias.com

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