Mulher, você é muito mais forte do que imagina

Cresci rodeada de sonhos, menina das delicadezas, da arte, das pessoas, do choro sentido, da alegria de viver e das princesas. Não era muito chegada à TV, mas os livros eram o meu mundo. Lembro-me do toca-fitas gradiente, ele era meu melhor amigo, eu levava pro meu cantinho de brincar sempre que podia, só de olhar aquele veículo de múltiplas fantasias vermelho, amarelo e azul, meus olhos brilhavam, quando ele começava a contar as histórias, eu me perdia e me achava. Era tão bom me imaginar em tantos reinados, tinha tanto medo das batalhas, meu coração acelerava, mas eu sabia que tinha um final feliz, então eu sempre ía até o fim.

Um belo dia, estava na missa das crianças com a minha avó e o padre disse que o felizes para sempre da Disney era a comunhão, eu fiquei intrigada e fiz um milhão de perguntas pra ela que sempre dócil me respondera dizendo que era algo tão sublime e grandioso que só quando chegasse meu dia eu entenderia tamanha graça. Fiz toda catequese, recebi Jesus muito emocionada, mas o entendimento não foi imediato.

O tempo foi passando, o gradiente cedeu a vez para os eletrônicos da Sony, primeiro veio o Walkman e num intervalo muito curto já era a vez do Diskman. Mas a essa altura eu já sonhava com meu príncipe. O desejo de escrever a minha história ganhava corpo. E a espera desse período era embalada por muita dança. Fui muito feliz no jazz, sofria com gosto no ballet, diverti um tanto no sapateado, vivi muitas contradições no contemporâneo e me realizei no flamenco. Sempre fui muito intensa, mergulhava em todas as propostas. Fiz personagens marcantes que morriam em cena e a sensação de poder levantar de uma representação tão impactante enchia meu coração de esperanças pra seguir.

Aos 16 anos já estava na faculdade entregue aos processos humanos, curiosa e muito determinada. Eu era a “Ju Baby” sempre disponível. Todo encontro era precioso, no segundo período já era monitora, no terceiro comecei a estagiar. Minhas horas de sono eram poucas pra tantos projetos. Eram pequenas realizações que faziam tanto sentido que o descanso eu reservava pros feriados. E foi acompanhanda de um MP3, num por do sol lindo, olhando pro mar, que chegou o meu primeiro amor.

Ele era um tanto desajeitado, tímido, mas muito simples e sincero. Com vários bombons e doçura do olhar foi me ganhando aos poucos. Morávamos em estados diferentes, aprendemos que o amor verdadeiro estava para além da presença física e viajávamos horas e horas só por um abraço. Foram cinco anos de namoro até o altar, o dia mais sereno da minha vida, o sim cheio de lágrimas, com o coração acelerado e um sorriso tão largo, parecia conto de fadas. Mas os perrengues dos primeiros meses de casados chegaram e a graça da oração, da prudência, da clareza, da humildade e do perdão devolveram-me pra mim em tempo de um recomeço desde o começo. Eu só não contava que, com 9 meses juntos, passados os desafios iniciais, que a música do meu iPhone ia parar de tocar por conta de uma ligação que mudaria tudo. Aos 24 anos, eu comecei a entender a graça da comunhão e que o felizes para sempre era, de fato, o céu.

Tinha muita gente no velório. Doía muito. Mas eu não fiquei sozinha um minuto. E na minha fragilidade máxima eu descobri que a Juliana Mulher era muito mais forte do que ela imaginava. Nos últimos 4 anos eu me devolvi pra arte, resgatei sonhos engavetados e aprendi a amar hoje, sem prestações, sem dívidas. Eu aprendi que paz a gente não financia. E que uma mulher de fé pode tudo. No meu Spotify tem um tanto de saudades, mas também tem oração, enfrentamentos e incentivo pra nunca me acomodar. Não admito perder a alegria de viver, preciso ser e também experimentar com humildade essa generosidade de estar aqui. Luto pra ser do outro sem deixar de ser de mim, sem desculpas. Afinal, ninguém pode ser feliz sem ser livre! Deus cuida, a gente só precisa confiar.

Juliana Sant’Anna dos Santos Veras Mourão

Carioca em Terras Portuguesas. Psicóloga, Logoterapeuta, e estudante de Mestrado em Psicologia do Desenvolvimento na Universidade de Coimbra. Comprometida com a alegria, apaixonada pela vida e voos livres. 28 anos de muita intensidade e sensibilidade. Transborda em palavras, dança, cuidado e amor. Aprecia arte e se alimenta da mesma para ressignificar e renovar o sentido da existência. Apaixonada pelo mundo e possibilidades de encontros. Sempre de malas prontas pra ir além!

Muitas Marias apresenta artigos originais sobre o cotidiano feminino. Saiba como enviar seu texto clicando aqui ou escreva para  contato@muitasmarias

12 comentários sobre “Mulher, você é muito mais forte do que imagina

  1. Ju,

    Obrigada por dividir sua história de vida. Sei que é a primeira vez que escreve abertamente sobre sua história e isso é sinal de que novos tempos estão por vir.
    Bjs,

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  2. Que texto maravilhoso, angel! Vindo de você não poderia ser diferente: sabe escolher sempre as palavras certas. Fico feliz em ver que hoje você abriu seu coração. Tenho certeza que isso será o marco de uma fase bastante iluminada em sua vida. Desejo só o melhor para você. Afinal, você é uma das poucas pessoas, e amigas, que eu conheço, que merecem tudo de mais maravilhoso que a vida pode oferecer. Que sua estrela brilhe cada dia mais e que você seja mais forte ainda para seguir adiante. Amo você, amiga!

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  3. Minha pequena grande Ju!!!! Deus cruzou nossos caminhos com muito sentido e nesse caminho ainda me emociono com tanta beleza nesse coração!!!! Te amo Ju!!!! Parabéns!!!

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