Já conquistamos tudo o que merecemos?

Lembro-me de ouvir meu pai dizer a quem perguntava sobre seus filhos: eu tive três paletós e por último veio um “nana nenê”. Achava engraçada e muito fofa a forma como dizia. Sou a última e única filha mulher, quando menina, frequentemente os ouvia dizendo o quanto foi comemorado minha chegada e o quanto as coisas mudaram. Depois de três meninos, não tem como não mudar, não é? Quando chega ou onde tem uma mulher, tudo é mais colorido, mais cheiroso, mais organizado, mais e mais.

Falam mais, choram mais, fazem mais de uma coisa ao mesmo tempo, ouvem mais, reclamam mais, insistem, persistem, exigem mais, cuidam mais, são mais detalhistas, mais amorosas, gastam mais, precisam de mais, mais sapatos, mais acessórios, mais roupas, mais tempo – esse é curto demais para dar conta de tudo o que precisa, não precisa e tem que fazer.

Em um dado momento do tempo, lá atrás, perceberam  a falta de algumas coisas.  Uniram-se,   movimentaram-se na tentativa de conseguir direitos iguais aos dos homens. Não podiam votar, não podiam exercer nenhum tipo de função na política, faculdade nem pensar, muito menos se divorciar. No mundo daquela que tudo era mais, faltava demais.

Imagino, repito, imagino como foi o desenrolar dessas conquistas, as conversas na hora do chá, até com os seus senhores (maridos) – com os mais abertos, carinhosos, apaixonados claro -, conversas guardadas a sete chaves, pois jamais poderiam saber das loucuras, ideias da cabeça de sua esposa e das amigas.

A partir de 1919 em alguns países o voto foi concedido e, no Brasil, a partir de 1934, mas somente as casadas com a permissão do marido e as solteiras ou viúvas com renda própria podiam votar. Grande conquista, mas até aí a possibilidade de atuar em altos postos e cargos era só na imaginação e tudo acontecia muito lentamente, pois, após o casamento, a prioridade eram os assuntos da família, da casa.

A história também nos conta que essa busca por direitos e igualdade começou anteriormente.  No dia 8 de março de 1857, operárias de uma fábrica de tecidos entraram em greve em Nova Iorque, reivindicando por melhores salários, pois recebiam até um terço do que os homens ganhavam para fazer o mesmo trabalho, entre outras injustiças.  Foram reprimidas e morreram queimadas dentro da fábrica. O dia Internacional da Mulher é comemorado em homenagem a elas, que decidiram não mais se submeter a tal situação.

Fortemente foram vencendo as críticas e o preconceito, entraram na faculdade, ocuparam a cada dia os mais altos e variados cargos e posições na sociedade.  Saíram do papel restrito de mãe e esposa. As mais diversas situações e razões levaram a isso: o abandono, a humilhação, a ânsia pela independência, a busca pela realização profissional entre outras.  Coube a cada uma se posicionar e escolher o seu caminho, aquilo que se propôs a buscar e priorizar.

Hoje é livre para escolher onde e como atuar, porém, muitas vezes, oprimida por aqueles que são contrários às suas escolhas ou convicções. Muito se foi conquistado, mas um longo e árduo caminho é preciso percorrer, sutis e explícitas barreiras a ultrapassar. Os salários ainda são desiguais, a questão da violência e tantas outras ainda precisam ser superadas.

Assim vamos avançando, na esperança de alcançarmos um mundo mais justo e igualitário.

 

Meire de Souza Pinto.

Casada, mãe, intercessora, professora, formada em Letras/Inglês, Pedagogia, pós-graduada em Educação Especial. Não teme desafios, encara corajosamente o novo. Gosta do frio e bolo de fubá com chá.

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3 comentários sobre “Já conquistamos tudo o que merecemos?

  1. Adorei seu texto, seja muito bem vinda ao nosso Muitas Marias.
    Ressalto que os papéis de mãe e esposa não eram funções restritas, , algumas ainda hoje se sentem plenas e completas exatamente fazendo destes locais o seu tudo. E o mais lindo é a gente poder escolher!
    Um abraço e escreva mais pra gente!!!

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    1. Obrigada Mariella! Com certeza! Faltou o “algumas” na frase: “Saíram do papel restrito de mãe e esposa” e acabou que generalizei. Eu mesmo sou uma delas, depois que tive os meninos, sempre que posso, escolho ficar a maior parte do tempo sendo esposa e mãe. Me realizo!

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