Machismo ou patriarcalismo?

Vi essa semana, no agradável canal do Youtube “Cadê a Chave”, um comentário interessante a respeito do caso de assédio cometido por José Mayer. O Leon, um dos apresentadores do canal, argumentou que só o fato de o ator dizer ser fruto de uma cultura machista não justificaria sua atitude, visto que, mesmo em meio ao machismo que circundava a sociedade de nossos avós, esse tipo de assédio não seria aceitável.
E concluiu: “só o machismo não justifica o que ele fez”.
Será?
Bem… Sob certa concepção, Leon tem lá sua razão. É que a palavra “machismo”, em sua origem, é meio que um sinônimo de “patriarcalismo”, “ideologia da supremacia do macho que nega a igualdade de direitos para homens e mulheres”. (Dic. Michaelis). É o sistema em que nossa sociedade foi organizada durante milênios, onde homens e mulheres tinham papéis bem diferentes, com o homem no comando. Um dos exemplos é a famosa passagem da Carta aos Efésios, em que Paulo gasta três versículos pra dizer que a mulher deve ser submissa ao marido — mas, é bom lembrar, também usa seis versículos pra dizer que o homem deve amar e respeitar a mulher (Ef 5, 22-33). O patriarcalismo não supunha igualdade, mas exigia extremo respeito. O exemplo que o Leon deu é claro: nossos avós, como o dele, provavelmente eram patriarcais, mas nunca aceitariam o que o Mayer fez.
Mas há de se lembrar que, com o tempo, as palavras “patriarcalismo” e “machismo” foram se distanciando, a ponto de a primeira não significar sempre algo negativo, mas a segunda sim. Hoje você facilmente encontra pessoas que se dizem patriarcais com orgulho, mas nem tanto quem se assuma machista. Creio que chamar alguém de “machista” pode até render processo por injúria — é que o machismo, como o entendemos hoje, é relacionado a discriminação, misoginia, assédio, estupro, agressão… É tratar a mulher sem o devido respeito. Tudo que o cavalheirismo patriarcal não permite, mas que é exatamente aquilo que José Mayer é acusado de fazer. Muitos, inclusive, acham até que o patriarcalismo exclui o machismo.
Mas…
Eis a questão.
O que constatamos hoje é que, na prática, uma sociedade patriarcal, mesmo que organizada de forma bem intencionada, acaba abrindo brechas para a discriminação do sexo feminino — porque, ao dar mais poder aos homens, cria uma condição ideal de impunidade pra aqueles que ofendem as mulheres.
Voltemos à bíblia. José, quando soube que Maria estava grávida, tinha o direito de denunciá-la por adultério (Mt 1, 18-24). A lei patriarcal da época dava razão ao homem, sem exigir comprovação alguma da acusação, e nem direito de defesa à mulher — ou seja, a atitude justa que José iria tomar veio da sua própria consciência, e não dos costumes da sociedade. Mas não precisamos ir muito longe: em nosso país, há até bem pouco tempo (antes de 2005), se uma mulher estuprada se casasse com seu agressor, ou mesmo com outro homem, o crime simplesmente deixava de existir. E antes da lei Maria da Penha (de 2006), crimes de violência doméstica contra a mulher eram frequentemente arquivados ou punidos com doação de cestas básicas, deixando o agressor à solta para fazer o que quisesse com a vítima. As dificuldades das mulheres eram — como ainda são, em diversos aspectos — pouco consideradas nas leis.
Ainda hoje, mulheres que denunciam algo são bastante desacreditadas. O clássico “aposto que não estava se vestindo adequadamente”, o “aposto que seduziu, provocando o assédio” e outros tantos chavões que escutamos diariamente por aí são provas de que precisamos, sim, abrir um pouco a cabeça e escutar mais o que as mulheres têm a dizer, suas angústias, seus medos, suas dificuldades. O papa Francisco já reconheceu que o patriarcado cometeu excessos (cf. Amoris Laetitia, 54), e vive insistindo que chegou a hora de ouvirmos mais as mulheres. Jesus as escutava, sempre, escandalizando até os próprios discípulos (Jo 4, 27).
Que sigamos, então, o seu exemplo. Sempre!
 
Gabriel Resgala é psicólogo, mestre em Ciência da Religião e profundamente mineiro, apesar de substituir o “uai” pelo “ué”. Autor dos livros “Comprei Jujuba!” e “Depois do teu olhar – Jesus pelos olhos de quem com ele viveu”. Escreve no seu blog e no facebook.com/gabrielresgala. Passa lá!
Muitas Marias apresenta artigos originais sobre o cotidiano feminino. Saiba como enviar seu texto clicando aqui ou escreva para  contato@muitasmarias

Um comentário sobre “Machismo ou patriarcalismo?

  1. OI Gabriel,
    bem vindo ao nosso Muitas Marias!
    Precisamos de homens inteligentes e que não tenham vergonha de se colocar no lugar do outro, escrevendo sobre a riqueza da vida com sensibilidade e afeto.
    Obrigada por compartilhar conosco sobre este tema, já esperamos os próximos textos!
    Abraço e paz

    Curtir

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