Nenhum homem presta?

Antes mesmo de ser psicólogo, eu já ouvia alguns desabafos por aí — creio que sempre passei uma imagem de “ouvido acolhedor”. E, é claro, já fui ouvinte de algumas decepções amorosas femininas (sobretudo na adolescência, que fase meu Deus!) — que, invariavelmente, acabavam no famoso veredito “acho que homem nenhum presta mesmo”…

Nessa hora, meu ouvido acolhedor em geral soltava um “epa, peraí! Tem um homem pregado em mim, sabia?”, e eu fazia aquela cara de: “como assim? E você não está aqui confiando suas mais íntimas lamúrias a um ser humano XY?”.

E a resposta, muitas vezes, era um “ah, mas… você não conta, né, Biel?” Que poderia ser traduzida como “ah, mas você é amigo, não é alguém que eu veja como ‘homem’, ‘HOMEM’ mesmo, sabe?”. O famoso “amigo gay que não é gay”.

E aquilo me deixava injuriado, independente de ter ou não algum sentimento para com minha interlocutora. Porque, não raro, ilustrava algo que, infelizmente, as mulheres fazem bastante: separar os “homens” dos “amigos”. Os que caem na famosa “friendzone”, rapaz… esses sofrem, viu?

Não vou entrar em possíveis explicações evolutivas ou similares, mas creio que é consenso observar que boa parte das mulheres, em nossa sociedade, se mostra atraída, no sexo oposto, muito mais por uma falsa sensação de segurança, de estar com quem dá a impressão de saber para onde vai, do que pela estabilidade emocional ou mesmo o caráter do sujeito. Uma cantada bem criativa, ainda que não expresse nada do que o rapaz realmente sente, dá a ele mais pontos no jogo da conquista do que se expressar de forma sincera, mas tímida. É preciso demonstrar controle da situação, mesmo que, às vezes, se escolha o caminho errado.

Essa preferência de boa parte das mulheres — em geral, é claro, pouco consciente —, somada ao fardo, imposto aos homens, de sempre terem que tomar a iniciativa na hora da conquista, faz com que boa parte deles aprendam, ainda na adolescência, a se envolverem menos e a jogarem mais. Se para o homem já é, por natureza, mais fácil separar desejo de sentimento, as atrozes lapadas da vida (sim, mulheres também podem ser bem cruéis, muitas vezes sem perceberem) se encarregam de endurecer ainda mais o que restava de moleza naquele coraçãozinho juvenil.

E aí, amiga, a capacidade masculina de jogar o jogo da sedução encontra limites inimagináveis. A ponto de alguns homens serem capazes de “jogar” com mulheres por anos a fio, até que um dia a sujeita tem aquela pesada desilusão… E vai dizer que homem não presta, mas já vai estar psicologicamente tão presa a esse jogo que não raro vai voltar pro mesmo “imprestável”. Ou arrumar outro parecido, tentando se enganar que “dessa vez vai ser diferente”… Não é?

Mas… Então qual é a solução?

Bem, a primeira coisa é procurar saber realmente o que se quer.

Ok, nem Freud entendeu totalmente o que as mulheres queriam. Mas digamos que essa pitada de indecisão que tanto charme dá à coisa, de querer deixar-se conduzir, pode ficar pra depois da escolha principal: primeiro você escolhe bem com que tipo de pessoa quer ficar, e depois que encontrar joga o jogo cotidiano da sedução com ele. Ou seja: deixe ele te surpreender com um presente inesperado, não com uma faceta de caráter desconhecida que você só vai descobrir após décadas. Isso você tem que conhecer muito bem desde sempre, e ter a firmeza de saber o que quer e o que não quer, o que aceita ou não, o que extrapola os limites do perdão ou não. Não precisa ser paranoica; é só botar o jogo um pouco de lado e deixar o que é verdadeiro vir à tona. Em você e nele.

E também não quer dizer que você deve escolher aquele sujeitinho esquisito, que não te desperta nenhum tipo de atração — só, quem sabe, “alargar” um pouco mais o espectro do que te fascina… Lembra da Penny, a moça bonita da série “The Big Bang Theory” que desiste dos fortões canalhas e fica com Leonard, o nerd de bom coração? Então: mesmo que no princípio pareça ter sido meio que um ato de desespero, com o tempo ela percebeu que podia, sim, se sentir muito bem atraída e satisfeita com ele. Foi paixão de verdade. Não sem desentendimentos, é claro — como todo bom casal de série que vive brigando-e-separando ao longo de 10 temporadas (acho que no fim deve dar certo, porque eu parei na 3ª).

Abra a cabeça e vá em frente. E lembre-se: homens são seres humanos, com todos os seus defeitos, desafios e dificuldades. Como você também é. Há milhões que não prestam. Mas ainda há vários que valem a pena — e acredite, não são só os tímidos espinhentos, tem de todo tipo pra todos os gostos! Alguns deles podem estar aí, do seu lado, de bobeira… Vai lá.

Ah… E é claro: homens, por favor, prestem! Nossa raça já está queimada demais… Né?

 

Gabriel Resgala é psicólogo, mestre em Ciência da Religião e profundamente mineiro, apesar de substituir o “uai” pelo “ué”. Autor dos livros “Comprei Jujuba!” e “Depois do teu olhar – Jesus pelos olhos de quem com ele viveu”. Escreve no seu blog e no facebook.com/gabrielresgala. Passa lá!
Muitas Marias apresenta artigos originais sobre o cotidiano feminino. Saiba como enviar seu texto clicando aqui ou escreva para  contato@muitasmarias

Um comentário sobre “Nenhum homem presta?

  1. Ufa! Que bom que os companheiros do gênero (masculino) estão aí para não me deixar mentir! Tem muito homem que presta. Mas qual mulher quer investir no moço-fora-de-forma? No menino que fala-esquisito? No garoto que tem um pouco de mau hálito? Muitas vezes estes homens têm corações de ouro e são jóias à espera de serem encontradas e lapidadas. Porque o bonitão, gostosão, rato de academia, todo mundo já nota, deseja e vai atrás. Mas e os homens que tem caráter e que por algum motivo do acaso não tem o melhor dos físicos, cortes de cabelo ou barba ninguém quer.

    O que muitas não sabem é que barba, mau hálito e musculos são muito mais simples de se adquirir do que o coração de ouro, caráter, companheirismo que eles tem a oferecer. 😉 ❤

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