Franqueza anônima, sai pra lá!

Novo aplicativo permite que usuários enviem questões e mensagens anonimamente para sua rede de contatos

 

O fim das férias de julho trouxe consigo uma novidade tecnológica de gosto duvidoso: um aplicativo desenvolvido na Arábia Saudita no qual é possível enviar e receber mensagens sobre as pessoas do seu círculo nas redes sociais, anonimamente.

A proposta se vende como um espaço para se ter um feedback honesto de seu grupo de amigos e colegas de trabalho a respeito de você.

Não baixei, sequer tenho interesse em utilizar, e me espanta o sucesso com que o aplicativo encontrou no Brasil.

Em que parte da modernidade a gente perdeu a capacidade de ser honesto e falar francamente as coisas uns com os outros?

Em pleno ápice da sociedade do espetáculo, onde parecer é muito mais importante do que ter ou ser, as pessoas produzem conteúdo o tempo inteiro, dão palpite em notícias que são relevantes só do outro lado do mundo, se sentem empoderadas e livres e fortes e fantásticas, mas precisam esconder sua identidade em um aplicativo  para dizer o que pensam sobre quem está no seu círculo social, e aceitam críticas de quem talvez tenha relevância zero na sua vida.

Que medo é esse de se responsabilizar pela sua opinião a respeito da outra pessoa?

E, em que medida, a opinião do outro, mesmo que anônima, ganha relevância tal a ponto de um aplicativo virar um sucesso de público e crítica?

Fico pensando em como a nossa sociedade está mesmo adoecida. As pessoas precisam do anonimato para dizer o que pensam umas das outras, para dar e receber feedback sobre suas atitudes, e também para fazer críticas, sugerir oportunidades ou mesmo perguntar alguma coisa sobre a qual tem curiosidade.

Particularmente, gosto de receber críticas.

Elas me fazem refletir sobre quem sou. Pra mim, porém,  é fundamental saber de quem vem a crítica, pois faço um filtro, lógico e racional, e verifico se vale a pena ouvir, se é uma crítica sincera, se a pessoa conhece a Mari para além das redes sociais e, assim, merece a minha atenção.

Eu também sou bastante crítica. Meus amigos sabem que contam comigo até debaixo d’água, e que eu meto o bedelho mesmo na vida deles pra dizer o que penso, sugerir coisas, porque eu sinto que do mesmo jeito que cuido deles, eles cuidam de mim com muita sinceridade e verdade.

Então, pra mim, esse aplicativo não serve. Tem quem goste do aplicativo, senão não faria sucesso e eu nem gastaria essas poucas linhas comentando o novo fenômeno.

Não vejo muito sentido em  se receber críticas sem saber de onde ela vem, qual a bagagem daquela pessoa a respeito do assunto e quanto ela me conhece. Por vezes, as pessoas nas redes sociais já são tão ácidas e impiedosas em seus comentários nos seus perfis pessoais, mas a gente filtra porque sabe que nem todo mundo ali é relevante, boa parte são contatos que a gente vê de vez em quando e que não faz qualquer diferença na nossa vida.

Isso me lembrou daquela passagem bíblica, onde Jesus ensina a  tirar primeiro a trave do teu olho antes de apontar o cisquinho no olho do outro. Em que medida a gente quer se esconder no anonimato pra criticar os outros, ao invés de olhar para nossas próprias fraquezas, defeitos e aperfeiçoar a nossa vida?

Detalhe: o nome do aplicativo quer dizer franqueza em árabe.

Franqueza anônima, sai pra lá!

Um comentário sobre “Franqueza anônima, sai pra lá!

  1. Realmente… nem tem o que falar. Que que está acontecendo com o mundo né? Parece que a gente tá andando cada vez mais rápido… pra trás. Concordo em gênero, numero e grau com o seu artigo Mariella.

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