Outubro Rosa: no meio do caminho tinha uma pedra

“Não precisa ser nenhuma especialista para saber que o pulmão dela está igual a uma árvore de Natal. Cheio de nódulos”. Foi assim, ouvindo essas palavras que numa tarde fria de junho, mais especificamente no São João de 2015, eu fiquei sabendo que estava com câncer de mama metastático, que é quando o tumor se espalha para outros órgãos. Se receber o diagnóstico de qualquer tipo de câncer não é fácil, ouvir que você tem um câncer incurável é pior. E saber disso dessa forma, ainda pior. E se você tem 35 anos de idade e está no auge da vida pessoal e profissional, muito pior.

Eu tive câncer de mama pela primeira vez aos 33 anos, em 2013. Fiz quimioterapia, radioterapia, tive enjoos, fiquei careca, fiz mastectomia bilateral (retiradas das mamas) com reconstrução imediata, coloquei silicone, tive altos e baixos, mas com a ajuda de excelentes profissionais, dos familiares e dos amigos, sobrevivi. E depois dessa tempestade, retomei a minha vida, ou melhor, mudei muitas coisas na minha vida, troquei de emprego, fiz uma viagem com minha mãe que há anos estava nos planos, fiz seleção para o mestrado, comecei a estudar para fazer um concurso público e segui em frente sentindo um gostinho bom de renascimento. Mas no meio do caminho tinha uma pedra, no meio do caminho havia uma mulher falando com um sorriso sarcástico no rosto que no meio do meu peito havia uma árvore de Natal.

Talvez, não fosse para eu ter ouvido isso, mas a porta da sala de radiologia estava entreaberta e eu acabei entrando e ouvindo. E no final das contas, eu penso que todo profissional de saúde deve ter respeito pela vida do paciente, mesmo na ausência dele. Imediatamente, então, eu perguntei ao meu oncologista quanto tempo de vida eu tinha, pois como a maioria das pessoas, eu associava metástase à morte imediata. Mas, felizmente, eu estava enganada e eu que achava naquele momento que tinha apenas três meses de vida, já estou nessa travessia há pouco mais de dois anos.

Ao longo desse tempo, eu já fiz vários tratamentos, alguns mais invasivos, que provocaram efeitos colaterais mais fortes, outros nem tanto. Graças à ciência, cada vez mais pesquisas são realizadas e novas medicações são lançadas com o objetivo de controlar o câncer de mama metastático e oferecer às pacientes tratamentos com mais qualidade de vida. Assim, o câncer de mama metastático tem sido considerado uma doença crônica. A própria portaria nº 874, de 16 de maio de 2013, que institui a Política Nacional para Prevenção e Controle do Câncer está inserida na Rede de Atenção à Saúde das Pessoas com Doenças Crônicas no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS).

Claro que ter câncer de mama é algo muito difícil e que essa é uma doença grave. Eu já perdi muitas colegas ao longo desses anos. Dados do Instituto Nacional do Câncer (INCA) revelam que o câncer de mama é a neoplasia que mais acomete as mulheres em todo o mundo e que cerca de 1,67 milhões de casos novos foram esperados para o ano de 2012, o que representa 25% de todos os tipos de câncer diagnosticados nas mulheres no mundo. No Brasil não é diferente, depois dos tumores de pele, o câncer de mama é o mais frequente nas mulheres e no ano de 2017 são esperados 57.960 novos casos.  

Mas além de tudo o que os profissionais de saúde e os cientistas fazem para a melhoria do tratamento do câncer de mama, eu acredito que a gente pode encontrar formas de tornar essa caminhada mais leve e fazer com que a doença não seja o centro da nossa vida, mas uma parte dela. Desde o diagnóstico, eu tenho uma rotina exaustiva de exames, às vezes os resultados não são muito animadores, as medicações não fazem os efeitos desejados e a doença escapa mais um pouco, mas sempre que essa gincana da vida me dá uma trégua eu me permito ser a pessoa mais feliz do mundo. E como eu consigo isso? Primeira coisa é nunca perder a fé e a certeza de que Deus sabe o que é melhor para mim. Além disso, eu tenho a sorte de ter a melhor mãe do mundo, que também abastece a minha fé com a fé dela. Eu também tenho amigos incríveis que me enchem de amor diariamente. Eu pratico meditação, faço tratamentos alternativos, cuido bem da minha alimentação e eu tenho a escrita.

Sim, foi por meio da escrita que eu já me salvei de alguns dissabores da minha vida. Ao receber a notícia de que havia sido aprovada no mestrado na mesma semana que fiquei sabendo da recidiva do câncer de mama, a escrita me salvou de sucumbir aos percalços que chegavam já naquele momento inicial e se estenderam ao longo da vida acadêmica. Entre exames, medicações, furadas e incertezas, havia um artigo para ler, um seminário para apresentar, um texto para escrever. E durante os dois anos de mestrado, embora tenha passado por momentos difíceis e de insegurança, essa experiência me fez acreditar que longe, definitivamente, é um lugar que não existe e que, portanto, podemos transbordar, se assim desejarmos. De chegarmos onde aparentemente não era possível e de ir além.

E, por fim, eu também encontro forças em outras mulheres com câncer de mama metastático. Por isso, eu compartilho aqui um link onde vocês podem conhecer histórias de outras mulheres que estão transbordando vitalidade há anos, porque ter uma doença é bem diferente de estar doente e com certeza elas vão surpreender vocês: https://www.youtube.com/watch?v=ZpaonYFqcI4

Fernanda Santana Miranda – Mestre em Saúde Coletiva pela Universidade de Brasília – UnB, possui graduação em Comunicação Social – Jornalismo pela Universidade Tiradentes. Atualmente é jornalista da Fundação Oswaldo Cruz Brasília, onde atua na assessoria de comunicação. Feminista e ativista pelos direitos da mulher com câncer de mama, gosta de viajar, fotografar e escrever.

Muitas Marias apresenta artigos originais sobre o cotidiano feminino. Saiba como enviar seu texto clicando aqui ou escreva para  contato@muitasmarias.com

7 comentários sobre “Outubro Rosa: no meio do caminho tinha uma pedra

  1. Conheci esta menina linda aqui em Salvador num dos aniversario de sua mãe, minha querida amiga Kissa. Desde então tenho acompanhado de perto a árdua batalha das duas pela cura de Nanda.
    Acredito que todas nós temos um caminho a percorrer e que Deus nos dá forças para seguirmos sempre adiante .
    Que os irmãos de luz façam o melhor por você Nandinha.

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  2. Oi amiga Celia! Obrigada!
    Vdd.a Nossa luta tem sido diária, uma caminhada longa em busca de uma VITÓRIA!!! E LÁ VAMOS EU E ELA COM MAIS UM OUTUBRO ROSA CHEIO DE MUITA FÉ! ESPERANÇA E PACIÊNCIA!!!
    E QUE AS BÊNÇÃOS DIVINAS CURE NOSSA NANDA.👍😘😍😗

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  3. Fernanda Miranda, grande jornalista, amiga companheira, esse texto me emocionou muito, mais do que os lindos textos que você coloca no Facebook e que eu faço questão de acompanhar, pois sua força, energia positiva, alegria de viver, me fortalecem e é uma grande lição de vida. Você e Kissa são duas pedras preciosas que encontrei nessa vida e graças a Deus estão vencendo a cada dia. Jesus te abençoe e te dê muitos e muitos anos de vida!!

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    1. Mari querida, que alegria ler seu comentário aqui! Você sempre me dando força para seguir firme em frente! Em breve vou aí te visitar! Um beijo e um abraço, minha amiga! ❤

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