Maria, modelo de comunicação e gestão servidora

Maria é a mulher que com seu Sim concebeu seu filho Jesus, um grande líder. Pelo exemplo, pela atitude, pela sabedoria e pelas ações nos ensinou com o testemunho da sua vida muito sobre a comunicação e a gestão servidora.

Ao fazer uma analogia de sua trajetória é possível encontrar muitos dos elementos na vida desta mulher empreendedora que nos dão verdadeiras lições sobre o tema. Haveria muitos atributos de Maria para lembrar, mas aqui serão elencados cinco pontos que auxiliarão como modelo.

Alegria do Sim: “Um anjo apareceu a Maria, e anunciou que ela seria a mãe do Salvador”, Maria, respondeu: “Faça-se!” Essa resposta nos leva a refletir que um dos atributos para uma boa comunicação e para uma gestão servidora, é saber que nos foi dada uma missão. Como Maria, no dia do anúncio do anjo, nós também não temos o total entendimento daquilo que este Sim vai exigir de nós.

Alegramo-nos, mas ao mesmo tempo não conhecemos, assim como ela como se daria aquela gestação e, também, como seria tudo o que enfrentaria, nós também não sabemos. Esse Sim dado por nós à obra, ou à missão que nos foi confiada deve estar guardada em nossos corações, mas também por escrito para que não se perca a memória deste momento. Ao se deparar com situações difíceis, sentir cansado e desanimado procure lembrar-se desse momento e perceber o quanto já foi realizado. É preciso repetir sempre: Faça-se! E renovar com alegria o SIM!

A grande notícia: Maria não sabia como comunicar o grande presente que tinha recebido. Também sabia que seria criticada, incompreendida por muitos. Sentiu medo, mas a missão que tinha era tão fascinante, tão grande que ela sabia que valeria a pena arriscar. Quando nos reportamos às instituições, muitas vezes, temos esses mesmos sentimentos.  Temos medo, pois não sabemos como as pessoas vão reagir, escutamos comentários que nos desanimam. Às vezes, chamam-nos de “loucos” porque não entendem nossa escolha humanitária.

É importante ressaltar que podemos ter, por exemplo, uma excelente  divulgação, uma grande notícia para comunicar sobre os trabalhos que realizamos, mas se não existir o acolhimento, a alegria, o amor, a certeza de que as ações e causas defendidas são os alicerces, não haverá comunicação.

É preciso falar: Maria foi convidada para uma festa de casamento e foi com seu filho Jesus. Chegando lá percebeu que o vinho estava acabando, então pediu a Ele que ajudasse os donos da festa providenciando mais vinho, evitando que ficassem constrangidos diante dos convidados. Maria se antecipou pedindo aos empregados que ajudassem a Jesus que fez o milagre de transformar jarras de água em vinho. Todos ficaram impressionados com a qualidade do vinho e a família ficou muito grata. Essa passagem mostra a importância de estarmos sempre atentos a tudo, às necessidades dos outros, às faltas e aos problemas que nos cercam.

Assim, como perceber também nossos problemas dentro da instituição e, como Maria, não devemos ter medo de pedir ajuda e confiar. Mas lembrarmo-nos de que a maneira de pedir é muito importante, veja como Maria pediu ao seu filho com autoridade e não com autoritarismo. Nesse caso, o líder servidor tem autoridade, e ele é respeitado porque é o primeiro a servir; portanto, quando pede algo, seu pedido não deve ser entendido como uma ordem, mas como uma necessidade.

Foco: A história nos mostra Maria sempre focada em responder a missão a ela confiada, desde a gestação até a morte e ressurreição de seu filho. Assim, também, o gestor servidor tem que focar na essência da obra, superando todas as dificuldades.     No livro intitulado “Foco”, o psicólogo Daniel Goleman diz que a atenção é fundamental para o sucesso de qualquer situação na vida ou em nossos empreendimentos profissionais. Ele define foco como uma ferramenta essencial que diferencia o especialista do amador, o profissional de sucesso do funcionário mediano. Ele alerta ainda que devemos aprender a aprimorar nosso foco se quisermos prosperar no mundo complexo em que vivemos.

Ao ler a história de Maria, é perceptível como ela tinha foco na condução de sua vida e na missão. Não faltavam situações e acontecimentos para lhe tirar atenção. Ela poderia perder-se em seus pensamentos e dificuldades, desculpar-se por ser uma mulher simples e sem instrução, ela teria mil motivos para não aceitar a missão, mas o que a diferenciou foi ter entendimento e foco. Como ela, lembre-se sempre da missão que lhe foi confiada e analise se continua focado no que é essencial.

Acolher: Maria, em sua vida vivenciou muitas experiências de acolhimento. Entre tantas, aquela que, a meu ver, foi a mais difícil que ela viveu, destaco a via sacra quando Maria caminhou silenciosa e triste acompanhando seu filho carregando uma cruz. Ela vivenciou a trajetória do seu filho até a morte. Diante da imensa dor, ela escutou o pedido de Jesus para que acolhesse João, um amigo, como filho. Em meio a sua dor, ela acolhe e, logo depois, recebe nos braços o filho morto e chora. Pouco tempo depois volta para casa com João e recebe muitos que haviam rejeitado seu filho quando estava no calvário. Ela acolhe e orienta.                            

Lembro-me de que anos atrás trabalhei em um Centro de Acolhimento de Meninos em situação de Risco Social, em Macapá (Amapá). Eles, sem autorização legal, não permitiam que os meninos dormissem no centro. Muitos permaneciam durante o dia e a noite, outros voltavam para suas casas ou ficavam na rua. Diversas noites fui chamada ao hospital da cidad, porque algum desses meninos tinha sofrido um acidente ou participado de uma briga. No hospital, quase sempre eram “jogados” num canto de uma sala, mesmo que estivessem bem machucados, sangrando e chorando. Aquilo me deixava muito triste, pois eles não eram considerados como prioridade de atendimento por serem “de rua”.

Certa vez, uma atendente me disse: “coloque esse lixo na mesa porque não vou pegar nele para fazer o procedimento inicial”. Foi muito chocante escutar essas palavras, mas sem pensar duas vezes peguei o menino todo ensanguentado nos braços, coloquei na mesa e disse para a atendente que, agora sim, poderia cuidar dele. Então, ela o fez meio a contragosto. O olhar do menino parecia me dizer: “não me deixe aqui sozinho, se você for, ninguém mais vai cuidar de mim”. Permaneci ali aos pés da cama do menino, que depois de medicado, adormeceu. Horas depois ele acorda e diz: “Tia, você não foi embora? Nunca alguém cuidou de mim. Muito obrigado! Eu não me importaria de sofrer outro acidente se tivesse certeza de acordar com esta atenção”. Respirei fundo, disfarcei as lágrimas e respondi: “Nem pense nisso! Acidentes nunca mais!” Segui com ele até ter alta e levá-lo para sua casa.                

Durante os anos em que trabalhei naquele centro, vivi muitas situações como essas e outras mais chocantes  que não cabem aqui. Desejo salientar que no exercício de nossa missão, muitas vezes, deparamo-nos com situações que precisamos saber acolher, mesmo que nos sintamos impotentes diante da realidade que se apresenta. Saber acolher as mais diversas situações e pessoas é fundamental na vida e, principalmente, nas instituições.

Maria também nos ensina que acolher significa ir ao encontro do outro. Recordo-me da passagem que, mesmo estando grávida, ela vai visitar a prima Isabel, que na velhice havia engravidado e precisava de ajuda. Maria colocou-se à caminho e à serviço com alegria. A alegria é outra característica da gestão acolhedora. Como Maria, passamos por muitos momentos difíceis, mas também vivenciamos muitas alegrias.

Muitos anos depois, retornei a Macapá para participar de um evento e ao final um rapaz se aproxima e pergunta se pode me dar um abraço. Achei estranho, porque não o conhecia. Ele foi logo dizendo: a senhora não está me reconhecendo? Falei: – Desculpe-me, mas não me recordo. Ele me deu um abraço forte e disse: – Sou aquele menino que a senhora cuidou no hospital. Vivia nas ruas, mas com seu acolhimento, percebi que só tratando bem as pessoas minha vida seria diferente. Então, voltei para escola, logo entrei na faculdade e agora sou Assistente Social. Desta vez não disfarcei as lágrimas e o abracei com o coração feliz por ter tido o privilégio de ver aquele homem feliz e com uma vida digna.

Acredito que muitos já viveram essa experiência de alegrar-se pela superação do outro e perceber que nossos pequenos e acolhedores gestos podem fazer grande diferença. Pense em algum momento que você acolheu e como se sentiu bem com isso. Nossa existência só tem significado se nos colocamos à serviço do outro. Em cargos de liderança não estamos lá para sermos servidos, mas, como Maria, para servir.

Olga Oliveira é Jornalista, pós-graduada em Gestão de Projetos Sociais.  É diretora Nacional do Centro de Ajuda à Mulher . Organizou a comunicação de eventos nacionais e de âmbito local. Coordena a Pastoral da Comunicação do Regional Sul 4 da CNBB. Ministra cursos de capacitação para ONGs.

Texto adaptado do Livro Gestão e comunicação servidora no terceiro setor, lançando em Agosto de 2017 no Muticom, em Joinville SC. Contato: https://www.facebook.com/oliveirassocialcomunicacoes/

Muitas Marias apresenta artigos originais sobre o cotidiano feminino. Saiba como enviar seu texto clicando aqui ou escreva para  contato@muitasmarias.com . 

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