Quem decide quando alguém deve morrer?

Que mundo é este no qual os detentores de algum poder na área da saúde e da justiça usam este pequeno poder para deliberar quem deve viver ou não, e deixam que mortes prematuras aconteçam?

Nos últimos dias, uma das pautas da imprensa internacional foi o caso do menino inglês Alfie Evans, que faria dois anos no próximo dia 09 de maio, alguns dias antes da celebração do dia das mães aqui no Brasil.

A saúde de Alfie estava comprometida por uma condição neurológica degenerativa, e a quase um ano  ele vivia com a ajuda de aparelhos.

O hospital onde estava internado começou uma batalha judicial para desligar os aparelhos que o mantinham vivo, pois segundo seus laudos, a criança não sairia do estado vegetativo.

Os pais de Alfie apelaram ao papa Francisco, que ofereceu uma opção de tratamento para o bebê no hospital Bambino Gesu, em Roma, mantido pelo Vaticano. O Papa fez um apelo pessoal às autoridades britânicas para a transferência da criança.

Mas os médicos ingleses não autorizaram a viagem e judicialmente impediram este deslocamento, alegando que não haveria chance de vida durante a viagem e conseguindo então, que os aparelhos fossem desligados.

Contrariando este diagnóstico Alfie sobreviveu por outros quatro dias sem a ajuda de aparelhos, mas como não pode viajar para se tratar na Itália, faleceu no dia 28 de abril.

O caso do menino Alfie ganhou a imprensa devido à intervenção do Papa, e eu me pergunto quantos outros Alfies (bebês ou já bem adultos e idosos) morrem no nosso Brasil todos os dias nos hospitais, nos presídios, nas ruas porque alguém que tem este pequeno poder, escolhe a morte do outro?

A sociedade contemporânea prega a alta performance, na qual parece ser um  dever de sobrevivência nos adequarmos exatamente ao padrão das métricas de corpo, saúde, vitalidade, rumo a uma sociedade eugênica e perfeita.  

E podemos extrapolar este reflexão para outras áreas da nossa vida: só os  mais bem dotados merecem viver, só os sorrisos artificialmente embranquecidos demonstram a felicidade, só os bem magros merecem destaque,   só os cabelos mais brilhantes e sedosos merecem estar livres ao vento, só os melhores e maiores legumes e verduras merecem as prateleiras do supermercado, só os alimentos com determinados nutrientes merecem ser cultivados, só os que são úteis e trabalhadores merecem consideração, só os que auxiliam o sistema a funcionar com o maior lucro possível merecem atenção…

Em que medida, em meio a esta sociedade de alta performance, deixamos que as instituições exijam de nós para além das nossas forças? Ou nos limitem aquém de nossas capacidades?

A eutanásia de Alfie violou sua dignidade e a dignidade de sua família, impossibilitou seu direito de ir e vir, seu direito a buscar tratamento em outro país.

Os responsáveis pelo cuidado daquela criança, primeiramente, eram seus pais, que mesmo não sendo detentores do saber médico, quiseram buscar outros tratamentos, ouvir segundas opiniões médicas, lutar por aquilo em que acreditavam.

Os médicos estudam muito mais que nós, mas o seu saber não deveria se sobrepor ao direito de uma família buscar uma segunda opinião – mesmo que seja em outro país.

Assim, que o fato de estarmos fora do padrão imposto pela sociedade atual, não seja motivo para limitar nosso direito de ser pessoa, nosso ir e vir, nossas conquistas.

2 comentários sobre “Quem decide quando alguém deve morrer?

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