Amamentar é… (na real)

“Amamentar não é (só) um ato de amor. É renúncia, é entrega, é doação! É dor, é culpa, é cansaço, é dúvida! É insistir, é persistir, é quase desistir. É tentar, é recomeçar, é se reinventar. É doar o tempo, a alma, o corpo, a vida, o sono, o descanso. Amamentar é vida, é crescer, é ver crescer. É duvidar, é questionar, é sorrir, e também chorar. É acordar quando todos dormem, e (não) dormir quando todos saem. Amamentar é ser julgada e (tentar) não julgar. É se despir, é permitir, é toque, contato, conexão. É estar junto, mas muitas vezes se sentir só. É ser capaz, se sentir incapaz, é negar a dor por acreditar ser (só) amor. É buscar, é desconstruir, é reconstruir, e também abstrair. É lutar, é sangrar, é transpirar, e quase pirar, é conquistar. É saúde, e também suor. É milagre, é fonte de vida, é alimento para a alma. É partilhar, é se dar, é deixar fluir. Por um dia, por uma vez, por semanas, anos ou meses. Amamentar é ser forte para não desistir, e ser ainda mais forte para quando não dá mais. Amamentar é tudo isso e algo a mais: amamentar é opção! (Nany Taniguchi – 2/8/2017)”.

 

Enquanto os jornais publicavam matérias sobre como o aleitamento materno é importante para o bebê e a campanha mostrava uma mãe tranquila e serena com seu filho no colo, na pose mais simbólica da amamentação, eu publicava o texto acima nas minhas redes sociais, depois de muito refletir e viver a amamentação. Enquanto o mundo celebrava a Semana Mundial do Aleitamento Materno, mostrando às mães que elas devem amamentar seus filhos por desejarem o melhor aos seus pequenos, eu comemorava o fato de há apenas alguns dias ter parado de sentir dor ao amamentar o meu filho, que estava com quase seis meses.

Aos quase seis meses de vida, meu bebê não tinha a tranquilidade de mamar aconchegado em meus braços. Para conseguirmos vencer esta etapa, ele teve que aprender a mamar sentado, em um posição nada confortável. Meus braços doíam por ter que pressionar sua cabeça contra meu peito para que ele aprendesse a ‘pega’ perfeita, minhas costas reclamavam, minha cabeça latejava e meus seios por pouco não suportaram. Eu tinha vergonha de amamentá-lo em público porque sempre era questionada. “Que estranho, nunca vi nenhum bebê mamar assim…”

Como a maioria das mulheres que sonham com a maternidade, eu a idealizei, na verdade, a subestimei. Depois de muito estudo, muito preparo, muita orientação, e muita determinação, consegui ter o parto que desejei, mas sofri muitos meses com o fato de não conseguir amamentar como as “madrinhas” da campanha de aleitamento materno. Passava boa parte do dia seminua pela casa, para que meus seios pudessem se recuperar após cada mamada e a pele ficasse mais ‘calejada’. Buscava cantinhos da casa que tivessem sol para que pudesse engrossar o bico do meu peito. Os poucos cabelos que restavam estavam sempre despenteados, mal arrumados, roupas largadas, olheiras no lugar da maquiagem, noites sem dormir. Por tentar, por não conseguir, por quase desistir.

Passei dias e dias frequentando bancos de leite para buscar orientação, investi em uma especialista em aleitamento materno, consultava quase diariamente minha enfermeira obstétrica. Ainda sim, não evoluía. As dores só aumentavam, junto com o desespero e a sensação de incapacidade e impotência. Era inadmissível, para mim, não alimentar meu filho com o meu próprio corpo. Afinal, era natural, instintivo, animal, visceral. Era inaceitável que eu, depois de ter me dedicado tanto e ter tanto leite para outras crianças, fato que me tornou doadora, não pudesse alimentar a criança que gerei.

Meu relacionamento com meu filho mudou. Cheguei à exaustão. Amamentar passou a não ser um momento de prazer e conexão. Eu tremia quando percebia que estava próximo de ele acordar. Mas não desisti. Não desisti porque não queria carregar mais uma culpa, porque não queria ser vista como alguém que não conseguiu. Afinal, se a maioria das mulheres consegue, por que eu não?

Estava completamente enganada. Nas cinco vezes que estive no banco de leite, havia uma fila de mães que precisavam de ajuda. Na verdade, elas precisavam de apoio, um pouco de amor, e, principalmente, compreensão. Precisavam se sentir seguras e se livrar dos julgamentos. Mas, nos bancos de leite, a palavra desistir também não existe. Você não pode desistir, afinal, você quer o melhor para seu filho. E assim, nas quatro vezes que estive lá, saí com a sensação de amor e acolhimento, uma lista de orientações e, às vezes, uma receita para amenizar as dores. Ah, e também com a missão de persistir, continuar e conseguir.

Meu bebê, com menos de um mês, foi submetido a uma série de avaliações e exercícios, para observarmos a sucção e alcançarmos a tão sonhada pega perfeita. Um dos exercícios exigia que eu colocasse quase todo o meu dedo mindinho na sua boca. Cinco repetições seguidas, algumas vezes por dia. Ele chorava, eu sofria. Eu chorava, e ele não entendia. No fundo, acho que para ele também não estava bom. Mas seguimos, dia a dia, noite a noite, mês a mês.

A minha última peregrinação ao banco de leite me marcou profundamente. Eu chorava, meu filho chorava. Era de manhã, as dores estavam insuportáveis. Ele tinha pouco mais de um mês. Peguei-o no colo, coloquei no carro e dirigi sozinha para o banco de leite. “Estou aqui porque se vocês não conseguirem me ajudar, vou desistir”. Não tinha horário marcado, não tinha comentado com ninguém que voltaria lá, depois de quatro vezes. Fui acolhida por uma enfermeira, que me acalmou. Pegou meu filho no colo, depois no meu peito, e falou: “está tudo correto, não sei o que está acontecendo. Ele ganha peso, está gordinho, não sei o que está acontecendo”. Tudo certo, apesar de meus seios estarem muito machucados.

Até que a médica veio me ver. Olhou aquela cena, conversou, nos avaliou. Ao final, disse (mais ou menos assim): “você poderia dar aula de amamentação. Sabe cada detalhe, cada movimento. Sabe fazer a pega, sabe segurar o seu filho. Sabe todas as técnicas. Mas não consegue”. Depois, olhou em meus olhos, enxugou minhas lágrimas, e concluiu: “pare com as técnicas, siga sua intuição e sua natureza, deixe fluir. E, se você não está feliz ou se não está bom para você, desista. A amamentação é importante para seu filho, mas é fundamental que você esteja bem”. Ela me abraçou, me compreendeu, me acolheu, me aceitou. A partir daquele momento, a maternidade, em mim, mudou.

As dores não passaram de um dia para outro, mas foram diminuindo com o passar do tempo. Aprendi que não seria mágico, que não seria de um dia para o outro. Segui até o sexto mês, como havia me proposto, até o início da introdução alimentar, pelo menos. Era um marco. Ou o meu limite. Persisti até meu filho completar quase um ano. Ele mesmo não quis mais. Acho que pensou: “mamãe, já está bom para nós. Conseguimos. Obrigado”.

Naquele dia do meu post, estava eu amamentando como as madrinhas da campanha. Sorriso no rosto, cabelos sedosos, serenidade. Meu filho parecia o bebê da foto. Deitado em meus braços, confortável, alimentado por mim. Mas foram longos quase seis meses até aquele momento tão idealizado, tão desejado por nós (eu, meu companheiro e meu filho).

E, naquele momento, pensei em todas as mulheres que passavam e passam pelo que passei, e que também buscavam alcançar aquela imagem idealizada. Pensei nas mães que não suportam, nas que se cobram, nas que sofrem pressão psicológica. No leite que diminui, no leite que não é fraco, nas mastites, candidíases mamárias, fissuras, no sangue que escorre do peito para que nossos bebês consigam mamar. No coração que sangra quando a dor é maior que a vontade, e nada solitária. Ela sempre vem com a culpa, com a cobrança, com a pressão. Minhas palavras não são uma contracampanha ao aleitamento materno. É uma campanha a favor do direito de escolha, a favor das mães, a favor do amor. Pois, naquele momento, amamentar para mim tornou-se uma opção. É sim amor, é sim, dedicação, mas não é só isso. É sim, dor, é sim real, e sim, é uma opção.

 

Nayane Taniguchi tem 32 anos, é mulher, jornalista, esposa, dona de casa, mãe. Apaixonada pela família e pelos filhos. Ousa brincar, interagir com as palavras e comentar sobre a intensidade da vida real. A maternidade tem sido seu grande aprendizado e lição.

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Crédito da foto que ilustra o post e foto da autora:  Thaissa Satie e Manu Costa, respectivamente.

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