Liberdade acrílica

O ser humano sempre esteve em busca de liberdade. Na Grécia antiga, criavam-se deuses e histórias de guerras apoteóticas para só então, ter liberdade em ser gigante na mente. Liberdade sempre está atrelada ao poder. Grande parte da cultura criada por aquele povo tornou-se os costumes conhecidos e utilizados até hoje, o helenismo fortemente empregado nas cidades gregas forjou a história. Em contrapartida, mais civilizações surgiram com outras posições ideológicas, outros nomes. Uma fé rompeu o que seria um levante em prol da liberdade. O cristianismo iria separar homens livres ainda que algemados ou presos em cadeias. Haveria liberdade mesmo na cruz.

Ser livre é também, em muito forçar passagem, querer transpor o tempo. Ser conhecido por escolhas e ações. Mas a liberdade de um afeta outros. Como em tudo, para ser liberto é preciso combater desafios. A dádiva está em não aprisionar para sair do cativeiro.

Tem um livro do padre Fábio de Melo que me marcou muito: “Quem me roubou de mim” além do encadeamento de histórias intrigantes, e por que não dizer, próximas. Há uma análise da relação “sequestrador” e “sequestrado”, a analogia de um crime feita sob um prisma das relações humanas.

O fato é quanta gente te aprisiona?

Somos dados em nos trancafiar em sentimentos e algumas histórias mal resolvidas. Já me senti presa por alguém que não existia. Voltei ao lugar de partida, redesenhei meu rosto, vi-me no espelho. Enxerguei a moça que tinha começado os sonhos. Fui lá e os realizei. Um a um.

Liberdade não é algo maior, intangível. Liberdade é compromisso diário. Saber se gosto de chá ou café. Dormir com a janela aberta ou fechada? Um pacto entre casais. Um tem medo, outro gosta da brisa suave tocando a pele.

Liberdade é ter alguém para molhar as plantas enquanto você decide viajar de última hora. Alguém que reze por suas causas, torça por seus motivos. Liberdade é errar e ser ouvida, jamais maculada. Gritar gol em dias de flamengo. Assobiar com os dedos depois de ter comido churrasco.

Liberdade é pouco, como provou Clarice Lispector. Hoje passo pela timeline do Facebook sem escrever ou ler muito “textão”! Aprendi que minha opinião não vale muito, nem minha vida é tão importante. Ela é contagiante aqui de perto.

Uma simbiose de acontecimento e tantas mídias para gerenciar me faz crer primeiro, tudo isso é bem cansativo. Segundo, posso viver, sem reticências em postar. Em 2018, ser livre é estar mais de oito horas off-line. Pratico aos finais de semana, em viagens, em encontros íntimos e também sagrados. Olhar no olho é libertador nesse tempo.

Uns vão dizer que liberdade é votar em quem quiser nas eleições, por mais que o “cardápio” seja antigo. As pessoas são livres em votar. Em vestir-se, em postar, em decidir e em acolher. Cada um acolhe o que lhe faz mais sentido. Isso vai desde escolher o novo Presidente da República até o nome de um filho. Já pensou em como suas opções modificam o trajeto?

A neurociência vai nos dizer em números que passamos a vida fazendo escolhas, de quatrocentas a mil decisões por dia aproximadamente. Que vão desde escolher a roupa para vestir, o caminho para ir ao trabalho. E o horário pra acordar e fazer tudo isso. Mas no afã da convivência, vamos descobrir que gostar de sal na salada faz diferença, passando-se os anos. Há pessoas que comem alface sem sal, e outras que nunca vão dizer que não gostam. Algum dia, durante uma discussão isso vem à tona. Perceba que não é o sal o fator biológico da questão e, sim, o arrendamento diário da liberdade.

Gosto de fazer novos caminhos para locais conhecidos, às vezes, saio prejudicada. Mas sempre que me perguntam, eu digo, “eu conheci um novo lugar”.

Ser liberto exige autoconhecimento, saber qual o grau da sua “pressão” num dia de stress. Saber se dorflex ou torsilax te relaxa. Entender o que bagunça sua autoestima e intestino fazem parte. Saber em quais horas do dia você produz mais. O que lhe arrepia a alma, afaga o peito e te dá vontade de chorar. Lágrimas são contingências libertadoras. Sorrisos também. Prefiro as risadas que ecoam pelo corredor. Espirrar alto. Acordar de cara limpa! Adotar o biquíni que te faz bem. Fazer parte do grupo da sopa solidária ou cuidar do seu único cachorro. Fazer orações em sua língua. Visitar outros templos, ver Deus na fé alheia.

Ser livre pra decidir com quem quer namorar. E por favor, sair com a roupa que goste, seja ela curta, ou não. Usar turbante independente de raça. Vestir só preto ou as cores do Olodum. Visitar sua crença de roupas brancas e pés descalços. Voltar para casa sozinha à noite no dia em que não sobrou grana pro Uber sem medo de não chegar.

Liberdade pra entender que as crenças e escolhas do outro não podem te machucar porque você tem as suas também, o mais natural então é: “Vamos respeitar”.

E o ápice eu diria, rir de si. De todas as liberdades, a maior delas. Sentar no chão no dia em que deu tudo errado e rir. Chorar se preciso. Essa foi uma das coisas que descobri depois de algum tempo espreitando a janela dos meus sentimentos. Entendi que além das minhas grandes e delicadas escolhas, manter o chuveiro no modo inverno é uma inestimável liberdade. Fórmula de conhecimento. Água quente me eleva.

Outro dia coloquei umas  poucas roupas no carro e fui embora de onde estava. Eu não tinha pertença. Não sou de lugar algum, aprendi reter pessoas que tentam me encarcerar e principalmente, a domar o meu eu.

Em 2015 fui estudar na Europa, minha mãe disse “Mas como você vai para uma terra distante e sozinha”? Além da carta de aceite da universidade (amo cartas), eu tinha minha inabalável forma de ser gente, meu bem mais precioso, meu valor supremo de vida. A tal da liberdade cheguei até tatuar em francês no ombro esquerdo, ao olhar-me no espelho diariamente está lá o feito para que eu nunca me esqueça de quem sou.

 

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Sheila Souza
Jornalista brasiliense, mestre em ciências da comunicação. Cristã, solteira, amante de viagens e do desconhecido, ama liberdade e acredita que toda mudança vem para o bem.

Muitas Marias apresenta artigos originais sobre o cotidiano feminino. Saiba como enviar seu texto clicando aqui ou escreva para  [email protected].

 

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