Fome e saciedade

Quando foi a última vez que você sentiu fome? Hoje em dia é difícil imaginar essa situação. Fora as refeições planejadas, não são raras as oportunidades para comer alguma coisa ao longo do dia. Dificilmente alguém consegue afirmar se está comendo porque precisa, porque está com vontade ou porque a comida está à disposição e você nem notou que comeu. Isso reflete a falta de atenção que se dedica a um ato tão presente e necessário para a vida. O ato de comer, responsável pela nossa saúde, alegria e satisfação, mas que pode acabar sendo motivo de doenças e preocupação.

Nós nascemos com o sinal de fome e saciedade perfeitamente regulado. O bebê chora quando está com fome e dorme tranquilo depois de mamar. Trata-se da fome fisiológica, sinal natural da necessidade de energia. A fome fisiológica geralmente é resolvida com qualquer alimento, pois não há seletividade quando o assunto é fome de verdade. Ao longo da vida surgem outros tipos de fome, como a fome ligada às lembranças e recordações. Receitas de avó ou um prato tradicional de família podem despertar fome não por necessidade de energia, mas pelo valor afetivo que carregam. Alimentos gostosos normalmente despertam vontade de comer mesmo na ausência de fome. Esse tipo de apetite nunca é urgente e, normalmente, a vontade é resolvida com uma pequena quantidade do alimento desejado. Outro tipo de fome muito presente é a fome social, ligada aos eventos e festas. Aniversário é sinal de bolo e cinema quase sempre inclui pipoca. São inúmeras as associações entre alimentos e ocasião e elas não precisam ser iguais para todo mundo. Algumas práticas alimentares ligadas às ocasiões sócias podem ser nocivas e é preciso ter consciência delas para conseguir modificar comportamentos alimentares. A fome emocional é a mais perigosa. Costuma chegar fora de hora, impulsiva e sem controle. Momentos em que não se escolhe o que comer. Ela faz com que a pessoa coma muito mais do que deveria, só percebendo o exagero depois que está muito cheia. A fome emocional é doença e não pode ser tratada com dieta. Para todos os outros tipos de fome a chave do sucesso é prestar atenção.

Ao longo da vida somos obrigados a seguir horários e a comer conforme a disponibilidade de alimentos. Além disso, o excesso de informações sobre nutrição e saúde acaba criando conceitos que guiam as escolhas alimentares de forma artificial e sem sentido. Pessoas comuns e sem doença deveriam comer conforme a cultura em que estão inseridas e não de acordo com a dieta da moda. Infelizmente, dedica-se mais tempo procurando o que é certo comer e prestando menos atenção ao que o corpo precisa. A mulher é um caso especial porque passa pela variação hormonal do ciclo menstrual. É normal precisar de menor quantidade de alimentos na primeira metade do ciclo e sentir mais fome e vontade de doces na segunda fase. Existe um equilíbrio, onde uma fase compensa a outra. Quando há consciência do processo fica mais fácil atender a vontade de comer um chocolate durante a TPM ao invés de devorar uma caixa de bombom. Prestar atenção ao corpo permite sentir que comer muito açúcar aumenta o desejo por doce; que chocolate amargo sacia mais do que a versão ao leite; que uma maçã pode não matar a fome do lanche da tarde, mas quando combinada com algumas castanhas o resultado é mais satisfatório.

Começar o dia com alguns questionamentos do tipo “estou com vontade de doce ou salgado, macio ou crocante” pode ser o suficiente para decidir se é melhor comer ovo mexido ou iogurte. Isso faz mais sentido do que acreditar que tapioca com ovo é obrigatório para emagrecer ou que café da manhã só é gostoso se tiver pão francês. Compreender o efeito de cada alimento no organismo permite comer de tudo, pois o natural é rejeitar o que faz mal e preferir o que faz bem. Cada indivíduo constrói uma história alimentar e é importante que ela seja respeitada. Prestar atenção às verdadeiras necessidades do corpo e conseguir o equilíbrio não é fácil, mas é possível. Um bom começo é pensar sobre isso.

 

Fabiana Nalon

Mestre em nutrição humana pela UnB e Especialista em qualidade em alimentos. Há 20 anos me dedicando à educação nutricional no consultório e como professora em cursos de nutrição e gastronomia. Casada há 18 anos e mãe de dois adolescentes. Adoro comer, cozinhar e celebrar a comida, com a certeza de que ela pode ser fonte de saúde e prazer. Instagram @fabinalon

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