O filho tão esperado ainda não chegou. E agora?

“Dá-me filhos, senão eu morro” (Gen 30,1). Sempre achei essa frase bíblica de Raquel, esposa de Jacó, muito exagerada. Pensava que não era para tanto. Hoje, consigo compreender melhor a angústia no coração daquela mulher. Ela era estéril e desejava profundamente ter um filho.

Wanderley e eu nos preparamos muito para o nosso casamento. Foram três anos de namoro e noivado, lutando para viver um relacionamento casto e santo, oferecendo a Deus nosso compromisso de formar uma família santa, e, de preferência, numerosa. Sempre quis ter muitos filhos. Dizia para Deus, no mínimo, três, porque tenho cinco irmãos e acho maravilhoso ter muitos irmãos. Não foi bem assim que aconteceu…

Ainda no período do noivado, tivemos várias formações sobre os métodos naturais de identificação da fertilidade e após nosso casamento, começamos a utilizar o método Billings. No segundo ano de casados, já começamos tentar a engravidar. Passou janeiro, fevereiro, março… outubro, novembro, dezembro, e nada! Em 2016, resolvi procurar ajuda médica para verificar se havia algo de errado. E meus exames eram perfeitos, eu não tinha nada. Depois de muita insistência da minha parte, convenci minha médica que algo não fazia sentido e então fiz uma ressonância magnética que detectou o que eu mais temia: eu tinha endometriose. Lembro como se fosse hoje, eu sabia que a partir daquele dia, um longo e tortuoso calvário se colocava à minha frente. A endometriose é uma enfermidade que afeta os ovários, o útero e que pode causar infertilidade. Muitas mulheres, mesmo com a doença, conseguem engravidar. Outras não. Fiz a cirurgia em 2016, retirando todas as aderências e, do ponto de vista clínico, não tenho nada. Wanderley também é super saudável. Mas o filho biológico, tão amado, tão desejado, tão esperado, ainda não chegou…

Nós, cristãos, sabemos que nem tudo que está nos nossos planos está, também,  nos planos de Deus. Várias vezes perguntei ao Senhor: “Pai, por que comigo? Por que com a gente? Logo nós dois, que sempre quisemos ter muitos filhos? O que o Senhor quer com tudo isso?”. Passei pela fase dos questionamentos, da raiva, da tristeza, da culpa… É um misto de sentimentos quando um casal precisa enfrentar a infertilidade. É o meu espinho na carne (II Cor 12, 7).

Não obstante toda consternação, Deus tem nos ensinado muito com tudo isso. Não somos mais os mesmos. A fé atingiu um nível de maturidade nunca alcançado antes. A intimidade com Deus é mais profunda. Aprendemos a viver de esperança. O sofrimento, se você permitir, pode ter o poder de nos aproximar mais de Jesus. Para nós, o significado de “Cruz” tomou outra dimensão. Temos entendido que o “não” de Deus serve para nos santificar. Que Deus continua sendo bondoso, misericordioso, longânime, favorável, poderoso e redentor, mesmo quando aquilo que você mais deseja não acontece. Esperar em Deus é um desafio para os fortes! Não sei se o Senhor nos presenteará com um filho biológico algum dia, mas este não é o ponto. A questão central é: Deus permanece sendo o Senhor Soberano das nossas vidas e da nossa família! A dor, a angústia, a tristeza de um “útero vazio”, não têm proporção alguma com a alegria de celebrar o “sepulcro vazio”. Jesus vive! Aleluia! Como São Paulo já nos ensinava: “Tenho para mim que os sofrimentos da presente vida não têm proporção alguma com a glória futura que nos deve ser manifestada.” (Rm 8,18). Não tem proporção alguma!

Por fim, o Senhor ainda abriu nossos olhos para a possibilidade da adoção. A esperança renasceu em nosso coração quando fomos à Vara da Infância e da Juventude e entramos com o processo de habilitação para sermos pais adotivos. Deus me deu uma nova visão espiritual sobre a adoção,afinal nós somos todos filhos adotados por Deus, Jesus é filho adotado por São José, Nossa Senhora adotou toda a humanidade, e entendemos que esse também é nosso chamado.

 

Nossa família vai aumentar, não sabemos quando, não sabemos se teremos só filhos adotivos ou filhos biológicos também. O que importa é que Deus permanece o mesmo! Não mudou nada Seu amor para conosco. Seus planos para nossa vida são maiores e melhores do que os nossos. A maternidade biológica virá, se isso estiver nos planos d’Ele, caso não, seguiremos confiantes que o Ressuscitado sempre tem o melhor para os Seus eleitos. Esperamos n’Ele, confiamos n’Ele! E a certeza  de que nunca seremos frustrados permanece viva em nossos corações! Não temos motivos para duvidar.

Creia! Deus sempre tem o melhor para a sua vida!

“Sei que verei os benefícios do Senhor na terra dos vivos! Espera no Senhor e sê forte! Fortifique o teu coração e espera no Senhor!” Sl 26, 13-14

(Texto originalmente publicado em rccbrasil.org.br)

DSC00161Tereza Cleise da Silva de Assis

Casada com Wanderley de Assis Batos, católica, do interior de Minas Gerais, mas tem o coração candango. Mora em Brasília há mais de 10 anos e ama o quadrado. Economista, servidora pública, em constante busca por seus objetivos. Sonha alto, privilegia a família, dependente de Deus e paciente. Aprendendo a ser gente, tocando nos seus próprios limites.

Muitas Marias apresenta artigos originais sobre o cotidiano feminino. Saiba como enviar seu texto clicando aqui ou escreva para  [email protected] .

 

 

3 comentários sobre “O filho tão esperado ainda não chegou. E agora?

  1. Eu acabo de ler seu relato e posso te afirmar: só quem vive o calvário sabe o que ele é, nas suas dores e nas suas alegrias (porque viver unido à Cruz, à doce cruz de Cristo, é realmente algo que acalma nossos corações). Tereza, eu te entendo PERFEITAMENTE (até porque minha história de vida é quase igual à sua). Vamos em frente. Firmes nos propósitos que Deus tem reservado para nós. Como diz meu diretor espiritual, Deus manda o filho na hora certa. E isso pra mim, basta. =)
    Se quiser conversar, estou sempre no instagram com minhas fotos de família: @anacoelho_fotografia

    Salve Maria!

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