O dia da superstição

Meu horóscopo avisou que o dia seria difícil. Chutei o pé da mesa, quebrei um espelho e ainda vi um gato preto. Que medo do que estava por vir! Compartilhei essa angústia com os colegas de trabalho. “Você passou o réveillon de branco, seu ano será de paz, fique tranquilo”, disse um colega para me tranquilizar. “Está usando sua camisa da sorte? Saiu de casa com o pé direito?”, perguntou outro. Tinha apenas um ramo de arruda comigo.
Ao fim do dia, eu fui ao casamento de um casal de amigos. Eu bem que tinha avisado
a eles que casamento numa sexta-feira 13 não traria sorte, mas eles não confiaram
em mim. O noivo era um sujeito azarado, ficou órfão quando deixou o chinelo virado.
Pois bem, durante a cerimônia, nós, os convidados, ouvimos uma voz alta e fininha, a partir da entrada da igreja, interromper repentinamente a celebração. “Parem esse
casamento já!”, gritou um biscoito enfurecido. “Eu era o último biscoito do pacote e a
noiva me comeu. Todo mundo sabe que quem come o último não se casa”, completou.
Ficamos pasmos!
Sim, a história acima é absurda em todos os detalhes. Tão absurda quanto a
superstição, definida como  a crença, sem  fundamento lógico ou racional, de que eventos aleatórios são presságios de eventos futuros. Isto é, a superstição atribui a eventos corriqueiros ou a objetos o poder transcendental de mudar os desígnios do homem.
Alguns dirão que “mal não faz”, por exemplo, bater três vezes na madeira, mas é
justamente esse aspecto que garante sobrevida à superstição. Se não faz mal, as
pessoas continuam fazendo.
Abaixo, argumento que a superstição, na minha opinião,  faz mal sim.
A superstição é uma inimiga do ser humano, pois o leva a buscar sentido onde não há e a realizar ritos e gestos inúteis, podendo beirar a obsessão. Usar branco no réveillon não traz sorte. Quebrar espelho não traz azar. O fabricante de camisas sequer sabe que produziu alguma camisa da sorte. E a seleção brasileira de futebol não se importa com o que aconteceu na sua casa durante o jogo. Igualmente, não se tem notícia de nenhuma cerimônia de casamento interrompida por biscoito.
Quer saber quão sem sentido as superstições conseguem ser? Converse com um
estrangeiro. As superstições são culturalmente construídas e, portanto, o que é
superstição num país não é no outro. Um amigo indiano, divertindo-se com as
superstições de seus país, me disse certa vez que cruzar as pernas por lá significa
matar uma pessoa. Por aqui, isso não significa nada. Aliás, não significa nada em
lugar nenhum, como qualquer superstição.
A superstição é, sobretudo, inimiga da fé: atribui a fatos ou objetos poder sobrenatural, o qual é exclusivo de Deus; atrapalha o culto verdadeiro a Deus; distrai; e, em alguns casos tenta impor a Deus a vontade humana por meios mágicos. Tudo aquilo que desrespeita a Deus, atrapalha o caminho de santidade ou altera a nossa compreensão do Deus verdadeiro, deve ser afastado de nossas vidas. Católicos devem ainda tomar cuidado redobrado com a armadilha da superstição, dado o risco de atribuírem poderes a sacramentais, artigos religiosos, como imagens ou medalhas, ou àquelas correntes de oração que vêm acompanhadas de ameaças.

As superstições que mais me intrigam são as relacionadas às festas de ano novo, pois
acontecem logo após o Natal. Como pode o homem ir tão rápido de uma festa cristã,
em que celebramos o nascimento do Filho de Deus, às mandingas?
Essa imagem demonstra o desvio pernicioso que a superstição ocasiona à fé. Evitar
as superstições exige uma mudança de mentalidade, reflexão e, sobretudo, o
reconhecimento de que nossa vida é governada pela Providência Divina.

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Leonardo Prudente é casado com a Moema e pai de Matias, Agnes, Maria e de um anjinho no Céu. Escreveu esse texto com uma mão só, porque a Maria estava deitada no outro braço.

Muitas Marias apresenta artigos originais sobre o cotidiano feminino. Saiba como enviar seu texto clicando aqui ou escreva para  [email protected] . 

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