Querida vizinha (desabafo de uma mãe) 

Querida vizinha,

Enquanto você se questiona e insistentemente me pergunta por que o meu bebê chora tanto, estou aqui ao lado tentando, apenas, acertar. A cada dia, aprendemos, juntos, a viver essa nova realidade.

A resposta mais óbvia seria, talvez, porque ele é um bebê, e ainda não sabe se expressar, mas tentarei refletir melhor sobre a sua questão.

O choro pode ser por incompreensão, ou por má compreensão, e, até mesmo, por má interpretação.

Compreensível, afinal, são poucos meses desde o nascimento. É difícil perceber todos os sinais.

O choro também pode ser por fome, sede, sono, ou algum incômodo. Pode ser frio, calor, e até mesmo por uma vontade enorme de um banho quentinho, e demorado. Às vezes são dores, às vezes, medo, e até um pouco de solidão. Compreensível, não?! São poucos dias depois de nascer. 

Há ainda a adaptação à nova rotina, às novidades, a vida fora do útero. Na barriga, havia proteção, cuidado e atenção sempre, de tudo e de todos.

Sei pouco da sua vida, tenho vivido integralmente essa nova fase. Não sei se você tem filhos, se é mãe ou deseja ser. 

Caso seja mãe, pode até ser que tenha se esquecido. 

Por isso, com afeto, gostaria de relembrá-la. 

A vida tem sido assim. É exatamente assim, como relatei…

… Mas, não estou falando (apenas) do meu bebê.

Na verdade, esta também sou eu. 

A maternidade bateu à minha porta e eu tive que renascer.  Do que me falavam, muita coisa diferente aconteceu. Ainda estou (re)conhecendo esse novo eu, que agora vive exclusivamente para um novo ser. Antes de satisfazer minhas necessidades, confiro se ele sente fome, se está com sede, frio, sono, dor. O dia acaba e mal consigo prender o cabelo num coque mal feito. As refeições são inacabadas, o banho é sempre em estado de alerta e o cansaço acumula com a privação do sono. E vivo esse momento calada, em silêncio, tentando aceitar e compreender. É uma fase.. vai passar. Enquanto isso, guardo para mim um misto de sentimentos que invadem a minha alma, trazendo euforia, tristeza, plenitude, solidão e até dor. Até pouco tempo atrás, todos os olhares estavam voltados para mim e meu bem estar. Meus desejos eram realizados, meu cansaço e choro eram compreendidos. Recebia carinho sem nem ao menos pedir, e isso às vezes até me incomodava, minha barriga se tornou um bem público. Agora convivo com a insegurança, o medo, as críticas e até julgamentos, por buscar ser a melhor mãe para meu bebê. Reflita sobre o que lhe contei acima, e perceba que por trás de cada necessidade do meu bebê, está a minha própria necessidade. Como disse, estou (re)aprendendo a viver. E o choro faz parte do processo de compreensão do novo, do desabafo, do cansado, do próprio amor. O choro do meu bebê, e o meu.

Amor, o que busco, é amor. Para meu bebê, e para mim. Para todos nós.

E, se por acaso nos encontrarmos de novo, peço que nos presenteie, apenas, com o seu bom dia. Se der, com o seu sorriso,  ou com o seu silêncio, e, se possível, com a sua compreensão, ou até com uma xícara de café. Enquanto isso, estamos aqui, do seu ladinho, no nosso mundinho, apenas tentando (e acertando) essa coisa que é viver. 

Passar bem.

 

IMG_4536Nayane Taniguchi tem 32 anos, é mulher, jornalista, esposa, dona de casa, mãe. Apaixonada pela família e pelos filhos. Ousa brincar, interagir com as palavras e comentar sobre a intensidade da vida real. A maternidade tem sido seu grande aprendizado e lição.

Muitas Marias apresenta artigos originais sobre o cotidiano feminino. Saiba como enviar seu texto clicando aqui ou escreva para  contato@muitasmarias.com

Um comentário sobre “Querida vizinha (desabafo de uma mãe) 

  1. Belo texto! É exatamente isso! É triste constatar a falta de empatia com a maternidade e suas nuances. O mundo é pouco amigável com as crianças. O pior é que só me dei conta disso quando me tornei mãe e passei a observar os lugares pouco amigáveis para eles, as reações das pessoas às suas manifestações infantis, etc. Como há muito nos ensinou o Pequeno Príncipe “todos os adultos foram um dia crianças, mas poucos se lembram disso!”

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