E quando agir é parar…

Eu sempre acreditei na máxima de Einstein de que “a vida é como andar de bicicleta. Para manter o equilíbrio, você precisa se manter em movimento”. E por aí vai uma pessoa que acredita estar sempre andando de bicicleta, e em alta velocidade.

A Física já nos ensinou que a velocidade de um objeto é calculada justamente em razão do tempo gasto em um determinado percurso. Em nossa vida, há uma indissociável relação entre velocidade e tempo. Nós corremos porque queremos ganhar tempo. É por isso que estamos sempre acelerados. Só que agindo assim, ao invés de ganhar, nós o perdemos.

É tão clichê, mas realmente impressionante como um vírus nos deu o tempo que acreditávamos não ter. Se por um lado o isolamento social nos tirou da rotina, por outro, ele nos deu tempo de sobra para fazer coisas não habituais.

Isso nos fez perceber que o problema não é o tempo (ou a falta dele), mas nossas escolhas. Nossas prioridades. São elas que nos automatizam. Nós simplesmente temos dificuldade em distinguir o que é urgente e importante. Olvidamos do conselho bíblico de que “a cada dia basta o seu cuidado” (Mateus 6:34).

Não se trata de uma mera mensagem de apoio e de ânimo para os momentos difíceis. Há mais profundidade na mensagem do evangelista. Não é sobre simplesmente suportar as agruras diárias, mas sim saber escolhê-las, uma vez que algumas, somos nós quem criamos.

Ou você acha que tudo que acontece na vida é aleatório? Somos vítimas do acaso, sem nenhuma interferência de nossas escolhas? Não é bem assim. Há, de fato, mistério em certos acontecimentos que fogem do nosso poder de decisão. Mas, a existência de uma margem de escolha é indiscutível, pois se não podemos controlar o que acontece, podemos ao menos escolher como reagir.

Boa parte do que acontece em nossa vida é simplesmente resultado de como escolhemos viver. Simples assim. Simples e doloroso. É difícil olhar no espelho e perceber que somos resultado de nossas escolhas. Mas, é também libertador! Se o hoje é fruto do meu ontem, então meu amanhã será necessariamente fruto do meu hoje. O presente é meu, portanto. Eu posso escolher. Decidir. Mudar. Manter. Transformar. Aceitar. Seguir. Desistir. Ficar. Sair. Trabalhar. Fugir. Ignorar. Acreditar. Tudo é escolha.

Além da existência do tempo, a quarentena também nos deu a perspectiva sobre uma nova dimensão dele. Que ele existe, já percebemos. Finalmente nos damos conta de que podemos sim parar alguns minutos para retornar aquela ligação prometida há alguns meses ou para arrumar aquela gaveta desorganizada há tempos.

Agora, a pergunta que remanesce é: será que eu realmente posso usar meu tempo como eu quero? Esta é a dimensão que nos cabe analisar agora. Seguíamos como em Tempos Modernos de Carlitos, quase que automatizados. Agora, podemos decidir se prosseguimos do mesmo modo, fazendo a mesma coisa do mesmo jeito ou se fazemos coisas diferentes ou só de modo diverso. O automatismo nos aprisiona.

Não paramos, fomos parados. Mas parar por parar simplesmente é insuficiente. Aliás, nem sequer paramos totalmente porque nossas atividades habituais, o trabalho, os deveres, as obrigações continuam intactas. O que vale é parar para refletir. Parar para sair do automático. Parar para escolher e escolher melhor. É uma pausa agora para prosseguir depois.

E, a pausa é divina. Está na essência da criação quando o Criador nos relata que trabalhou seis dias, mas descansou no sétimo (Gênesis 1 e 2). Não foi em vão. Ele parou. Não foi um parar inerte, mas ativo para ver e Ele viu…que tudo era bom.

Esta deva ser a essência de nossa parada. Verificar se o caminho está certo. Se as escolhas foram acertadas. Se há reparos que devem ser feitos. Se o que fizemos e estamos fazendo é bom.

Esta parada involuntária em razão do coronavírus, além de nos fazer perceber que o tempo existe, também nos recordou que ele é finito. Para alguns, ele findará pelo vírus, mas para a maioria não. Ele continuará fluindo. E nós, prosseguiremos ignorando-o?

 

thielly pithanThielly Dias de Alencar Pithan e Silva.

Casada. Juíza de Direito. Católica. Amante de poesia. Sonhadora. Idealista. Acredita que a educação pode transformar qualquer realidade e que sonhar vale a pena apesar das adversidades.  

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