Precisamos falar sobre o aborto

Certamente você já ouviu esta frase: “precisamos falar sobre o aborto”. Em quantos programas de televisão, entrevistas, rodas de falas e ‘debates’ dos mais variados tipos você ouviu uma voz que se levantasse contra o aborto? Em raras exceções seguramente. 

Isso se dá por uma razão muito simples, como bem nos expõe Francisco Razzo: “O que se divulga como debate é, pelo contrário, pura expressão de propaganda pró-aborto articulada em uma complexa rede de interesses ideológicos, políticos e econômicos. “Debate” é um termo usado com a finalidade de criar falsa impressão de tolerância. Em uma sociedade democrática, a tolerância é uma das principais virtudes. Quem se recusa a participar do debate é tachado de intolerante. Como ninguém deseja ser intolerante, todo mundo precisa estar de coração e mente abertos para dialogar, ofertar excelentes opiniões e, acima de tudo, concordar.1

Bem, estou aqui para discordar desse discurso abortista. Antes de mais nada, é importante que se diga que, quem é contra o aborto não é a favor que mulheres morram em decorrência de abortos clandestinos, não é contra a vida da mulher que se encontra em situação de vulnerabilidade, pelo contrário, quem defende a vida a defende plenamente. Quem é contra o aborto reconhece igual dignidade da vida da mulher e da vida do embrião. Queremos salvar as duas vidas!

Mas não é uma pessoa, dizem. Vejamos: é possível que uma mulher engravide e dê à luz a outra coisa senão a um ser humano? Seja honesto intelectualmente e não traga à reflexão hipóteses de anomalias raras onde o que se forma não chega a ser humano, não é essa a regra da reprodução humana! 

A gravidez não é uma formação espontânea do corpo da mulher, sem um ato sexual ou reprodução assistida por trás. Não se trata de um câncer, onde seu próprio organismo se altera e produz células defeituosas sem a sua autorização. Portanto, não se trata de uma decisão exclusiva e individual da mulher. Nem vou adentrar aos direitos do pai que, por si só, daria um texto exclusivo.

Meu corpo, minhas regras. Sim, concordo que mulher tem a liberdade de escolher como usar o próprio corpo. Mas um bebê não é o corpo dela. E é nisto que consiste o maior problema do aborto, o embrião está no corpo da mulher, mas não se confunde com ele! Se por qualquer razão, seja psicológica, social, familiar, etc., a mulher se decide por expulsá-lo, ela está se decidindo por mata-lo2.

Ah, mas os anticoncepcionais não são cem por cento seguros, uma mulher não deve ser obrigada a enfrentar uma gravidez se ela não desejou isso. Eu já estive grávida, acredite, eu sei como é difícil! São muitas limitações, hormônios, dificuldades do início ao fim. Mas, sabe, é transitório. Tirar a vida, por sua vez, é definitivo.

A liberdade vem sempre acompanhada de responsabilidade. É aquela velha máxima: “você é livre para escolher o que quiser, mas é escravo das consequências”. A liberdade é um direito nobre, mas ele não existe antes da vida. 

Ser contrário ao aborto é defender que a liberdade de escolha é inferior à vida. É defender que uma vida não pode ser aniquilada porque implica em obrigações e restrições transitórias à vida da mulher. Sim, transitórias, porque se a mulher não quiser criar seu filho, ela poderá entrega-lo à doação e não será obrigada a assumir pelo resto da vida a maternidade que não deseja. 

 

As coisas não são colocadas assim, entretanto. O discurso pró-aborto é sedutor e tem semblante de humanitário, de benevolente com as mulheres, com a sociedade e com a saúde pública.

 

Se você é contra o aborto, logo, você é contra o direito das mulheres de ter uma vida sexual autônoma, de ser livre, contra a sua dignidade, você é machista, opressor, nazista, pronto falei.

Percebe como não se tem discussão? O que se tem é um articulado uso das palavras para impor uma opinião. Isso é tudo, menos debate. Desse modo, não diga bebê, neném, ser humano, diga amontoado de células, resíduo biológico, coágulo de sangue… uma coisa que “é capaz de atravancar o bem-estar de mulheres empoderadas” 3.  Coisifica-se o ser humano para tentar se tirar do inconsciente coletivo o fato de que abortar é matar uma pessoa.

 

E, por favor, jamais diga que para qualquer procedimento abortivo “será necessário mutilar, destroçar, esmagar e triturar uma pessoa ainda no ventre” 4. O que você deseja com isso, fazer com que essa mulher se mate e se torture ao ouvir suas palavras? 

 

Vivemos em tempos que não se pode dizer que a grama é verde. É difícil romper essa espiral do silêncio, é tão mais confortável falar de amenidades, de coisas prazerosas, de dicas de beleza e cuidados pessoais. Sim, seria um caminho mais fácil, mas na minha consciência bradam os gritos calados dos bebês aniquilados, das mulheres enganadas, a quem não foi dito que havia outras possibilidades.

 

Se todo o aparato, dinheiro, movimentos, associações, personalidades famosas com seus holofotes fosse utilizado para dizer a essas mulheres que não é preciso matar, que elas serão cuidadas e amparadas e, caso não queiram os filhos, eles podem ser entregues à adoção, certamente a maioria das escolhas pelo aborto não seria feita. Mas isso não é dito! Amparar e dar auxílio a essas mulheres custam dinheiro e não dão lucro. Não se iluda, há uma poderosa e lucrativa indústria por trás do aborto. 

 

E por que esse assunto agora? Estamos no meio de uma pandemia e você vem falar de aborto? Para você ver, enquanto estamos preocupados em salvar vidas, o STF achou por bem agendar o julgamento da ADIN 5581 para o dia 24/04/2020. Enquanto nós não podemos nos aglomerar ao seu redor em defesa da vida, as ilustres excelências querem autorizar o aborto eugênico5, sem que hajam vozes incômodas a importuná-los.

 

A referida Ação Direta de Inconstitucionalidade visa autorizar o aborto de crianças atingidas por dengue, chikungunya e zika. Como disse Richard Dawkins, em 2014: “É imoral trazer isso ao mundo se você tem escolha”… “Para tentar ser claro, se todos os envolvidos com a criança, seus pais, responsáveis, médicos etc. julgarem que aquela vida será uma criança que nunca se tornará o que entendemos por uma pessoa – com determinadas capacidades básicas de autocompreensão, sensação, e entendimento, mesmo que rudimentar, acho justificável que todos eles decidam pela morte”6. Se há algum mérito nessa fala nefasta, é de que não se tentou camuflar a natureza do ato de matar uma criança.

 

Já que está em voga chamar este ou aquele de nazista, nos dias de hoje, agora poderemos utilizar a palavra adequadamente: “Tempos de guerra, segundo Hitler, “são os melhores momentos para se eliminar os doentes incuráveis”. Muitos alemães não queriam ser lembrados dos indivíduos incompatíveis com seu conceito de “raça superior”. Os deficientes físicos e mentais eram considerados “inúteis” à sociedade, uma ameaça à pureza genética ariana e, portanto, indignos de viver” 7. Tempos de guerra, tempos de pandemia… 

 

Para um pouco, respira. Às vezes precisamos tomar fôlego para encarar a realidade de frente, não raras vezes eu tenho palpitações quando me debruço sobre este tema.

 

Eu continuo acreditando que o bem é superior ao mal, que a humanidade é melhor do que os noticiários nos fazem crer, tanto é assim que, neste ano, foi promulgada, no Brasil, a Lei 13.985/20, que institui pensão vitalícia para as crianças com Síndrome Congênita do Zika Vírus. 

 

A mãe de um filho especial não quer matá-lo, quer ter condições de garantir a sua manutenção e dignidade, quer vozes que a apoiem e defendam o seu filho e não que o vejam como um ser abjeto que não merece viver!

 

Caros ministros, apenas parem com este ativismo judicial, usurpando a função legislativa que não lhes pertence e para a qual vocês, excelências, não foram por nós eleitos! Não legislem à canetada sobre a vida de crianças inocentes!  #STFNãoCaleAMinhaVoz

 

E para finalizar com poesia, eu fico com a canção que diz: 

 

“Há quem fale

Que a vida da gente

É um nada no mundo

É uma gota, é um tempo

Que nem dá um segundo

(…)

Há quem fale

Que é um divino

Mistério profundo

É o sopro do criador

Numa atitude repleta de amor

(…)

Sempre desejada

Por mais que esteja errada

Ninguém quer a morte

Só saúde e sorte

(…)

E a pergunta roda

E a cabeça agita

Eu fico com a pureza

Da resposta das crianças

É a vida, é bonita

E é bonita!”

juliana moreiraJuliana Moreira é brasiliense de certidão e coração, casada, mãe de um menino, com formação e atuação profissional em direito, mas amante da literatura. Extrovertida e sorridente. Adora conhecer pessoas, viajar, comer bem e desfrutar a vida na companhia de sua família e de seus amigos. Apaixonada por livros. Tem a escrita como terapeuta preferida. Católica que tenta sempre se aproximar mais de Jesus Cristo e aprender dele o bom caminho. Idealizadora do @eumaeleitora

 

Referências: 

1-  RAZZO, Francisco. Contra o aborto. Rio de Janeiro: Record, 2018, 2ª ed., pg. 114-115.

 2- RAZZO, Francisco. Contra o aborto. Rio de Janeiro: Record, 2018, 2ª ed., pg. 65.

3- RAZZO, Francisco. Contra o aborto. Rio de Janeiro: Record, 2018, 2ª ed., pg. 148.

4-  Idem.

5- “Que diz respeito à eugenia, processo que pretende aprimorar a genética humana. Diz-se do indivíduo apropriado para a reprodução, que vai gerar filhos fortes e saudáveis. Que visa o melhoramento da raça.” Disponível em: https://www.dicio.com.br/eugenico/

6- Peter Singer. “Ética não é sobre o que fazemos, é também sobre o que não fazemos”. Fórum, 26 jul. 2013. Disponível em: <<http://www.revistaforum.com.br/2013/07/26/peter-singer-etica-nao-e-sobre-o-que-fazemos-e-tambem-sobre-o-que-nao-fazemos/&gt;

7- Disponível em: https://encyclopedia.ushmm.org/content/pt-br/article/the-murder-of-the-handicapped

Muitas Marias apresenta artigos originais sobre o cotidiano feminino. Saiba como enviar seu texto clicando aqui ou escreva para muitasmariasblog@gmail.com

 

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