Escreva para sua mãe

Escrevi este texto para minha mãe no ano passado. Enviei a ela. Li pelo telefone para ela. Publiquei no meu instagram. E trago aqui hoje, para incentivar que você, leitor, faça o mesmo.

Você só tem o dia de hoje, como certo na sua vida, então não guarde seus sentimentos no seu coração.  No domingo que vem será celebrado o dia das mães, então aconselho que você expresse, por escrito, seus sentimentos sobre sua mãe. Se quiser enviar pra gente o seu texto e uma foto sua com a sua mãe,  nós o publicaremos, com alegria. Mas o mais importante é apresentar o seu sentimento diretamente para a sua mãe. É nosso dever honrar nossos pais, e vale a pena fazer uma homenagem que expresse um pouquinho de nossa gratidão a eles. Aqui, a minha homenagem à minha mãe:

“Tudo que eu falar sobre a minha mãe ficará aquém da admiração que sinto por ela.

Quem conhece nossa família de perto, sabe.Quem não conhece, imagina aí: uma menina que brincou com bonecas feitas de sabugo de milho e que, no primeiro banho, viu aquele brinquedo se desmanchar.

Uma adolescente estudiosa que só tinha um caderno para o ano escolar todinho, e escrevia nele a lápis, para apagar as primeiras folhas e reutilizá-las quando chegasse ao final.

Uma jovem que tinha poucas roupas, que passava ferro a brasa no cabelo para esticar, que foi a primeira mulher da família a fazer um curso superior, de estudos sociais, mas nunca exerceu a profissão de professora pois percebeu que não teria paciência com aluno – e não quis ser só mais uma em sala de aula.

Uma moça que conheceu meu pai, o garanhão do bairro Alvorada, em um passeio na roça, namorou sete anos a distância, enquanto a casa ia sendo construída, e casou depois dos 30 no início dos anos 1980.

Uma mulher que teve sua primeira filha com 34 anos, e teve ideias malucas na gravidez tais como colocar o nome da criança de Monamaris (obrigada meu anjo da guarda por ter soprado no ouvido dela que Mariella era melhorzinho 😂).

Ela teve o segundo filho em pleno Natal de 1985.

Ambos partos normais sem anestesia, nem enfermeira obstétrica, muito menos doulas, musiquinha preferida, aquela luz baixa, bola de pilates e outras “necessidades básicas” de hoje. E que trabalhou até sentir as contrações.

Alguém que escolheu a dedo uma ajudante em casa que fosse como mãe para nós, mas até encontrá-la passou aperto com babás que não tinham essa vocação: uma me deixava chorando em casa para sair de moto, a outra me chamava de burra (sim, eu, um bebê de colo – obrigada por não se calar, vizinhança!).  Uma mãe dedicada, que nos ensinou o que é o tempo de qualidade, fazendo dos almoços e noites em casa espaço para conversas sobre a gente, hora de corrigir dever de casa, ou só sentar ali na varanda e ver o povo subir a rua do alto. A noite das segundas-feiras também tinha Hebe e,  aos domingos, Silvio Santos.

Uma esposa leal, companheira e zelosa demais com meu pai, alguém que coloca a família em primeiro lugar. Uma guerreira que não teve vergonha de bater na porta do melhor colégio da cidade e pedir bolsa de estudos pra nós . Que não desistiu quando ouviu gente dizer que os filhos dela não iam se adaptar em colégio de rico, e que aquele lugar não era para nós.

E antes disso, bateu na porta de muita gente vendendo pano de prato decorado, bordado, com bico de crochê, peças artesanais com o seu notável bom gosto que complementavam a renda da casa.

Uma mãe que botou a filha adolescente para fazer curso de bordado, de pintura em tecido, e em vão tentou que ela aprendesse violão e o tradicional curso de culinária da cidade.

Minha mãe trabalhou por 49 anos na mesma loja,  de pé, de 8h30 as 18h, ali atrás do balcão, sempre com um sorriso no rosto e uma ideia para vender o melhor tecido aos seus clientes. Tanto tempo e dedicação como balconista fizeram com que ela fosse conhecida na cidade pelo nome da loja, é a Darci da Casa Américo. Se aposentou no início de 2020, e foi homenageada pelas patrões e colegas.

Minha mãe chorou ao ver os filhos irem estudar fora: de alegria pela conquista, de saudade pela distância, de medo do desconhecido, de agradecimento por poder confia-los a Deus.

Ela também é uma mulher de fé autêntica, vivida em casa e fora de casa, é muito generosa. Lembro que ela é meu pai ajudaram na construção da primeira igrejinha do nosso bairro, hoje uma paróquia . As primeiras missas eram organizadas de cima de um caminhão, debaixo do sol, e a gente passava noites no colo deles nas reuniões da associação de moradores. “Estude para realizar seus sonhos, e case-se com um homem trabalhador” fazem parte da lista de conselhos que ela repetia para mim. E como ela gosta do genro, gente ! ❤️ sempre que nos visita, pode faltar tudo na sua mala, menos as rosquinhas de nata preferidas do meu esposo!

Enfim, não preciso me ancorar em nenhuma ideologia, modinha ou autor renomado estudioso da escola de sei lá onde para me ensinar o essencial da vida, sobre ser mulher, sobre feminilidade, sobre estar no mercado de trabalho, estudar, cuidar da casa, da família e de mim mesma.

Eu tenho uma mãe.

Obrigada, mãe! ❤️ ”

Muitas Marias apresenta artigos originais sobre o cotidiano feminino. Saiba como enviar seu texto clicando aqui ou escreva para muitasmariasblog@gmail.com . 

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