O presente do presente

No domingo passado, minha irmã, mãe de uma linda menina de 1 ano, foi surpreendida com a seguinte mensagem: “Estar longe não significa não estar perto. Todo nosso amor neste dia tão especial para todos nós. Te amamos muito, e temos muito orgulho da mãe que você se tornou! Bela é uma menina de sorte! Obrigada por nos presentear com uma família tão linda!”. Ano passado estávamos todos juntos, comemorando seu primeiro Dia das Mães. 

Já eu e meus irmãos não conseguimos deixar mensagens para mamãe, que está em isolamento, há mais de 30 dias e 500 km de distância, incomunicável. Está lá por um bem maior: cuidar de sua mãe, que durante um vida inteira, se dedicou aos 10 filhos. Aos 96 anos, ela vive algo que nunca imaginou, e, por proteção, amor e cuidado, está longe de todos nós.

Impossível dissociar o Dia das Mães do que vivemos atualmente. Tudo é  diferente. Nunca vivemos nada parecido. Uma nova rotina nos foi imposta. Penso em quem, assim como eu, não pode abraçar sua mãe. Não teve aquele tradicional almoço, o momento do presente, tudo aquilo que estávamos acostumados. E, exatamente por isso, penso que o domingo não foi “pior”. Muitos de nós poderíamos já estar fazendo, há algum tempo, tudo no automático: “shopping lotado, ok; presentinho ou presentão, ok; filas intermináveis e restaurantes lotados, ok; brota no Dia das Mães para o costume de vocês…”. E, agora, pela primeira vez, fomos obrigados ao simples, que resgata o verdadeiro sentido da celebração desse dia, assim como tantos outros já considerados “comerciais”. A saudade ocupou o lugar do previsível, e sentimentos que já estavam até adormecidos apertam o peito, podendo ainda resgatar um trecho daquela canção que dizia: “que o mais simples fosse visto como o mais importante…”. Uma singela mensagem nos emocionou. Que isso seja o nosso presente, o verdadeiro presente em meio a essa tragédia toda. Que saibamos nos reinventar, nos refazer. Reconhecer e valorizar a presença (ou ausência) daquelas que são e foram capazes de tudo por nós.

Lembro quando tudo isso começou. O mais comum eram os relatos que beiravam o desespero, de mães, como eu, que teriam que conciliar todas as funções invisíveis que exercemos em um único espaço: nossa casa! A confusão e falta de compreensão é que esse sentimento não é por “ter” que ficar 24 horas com os filhos. É por ter previsto que isso resultaria em uma rotina exaustiva, sem o direito a um segundo (é sério), um mísero segundo de descanso. Decidimos ter nossos filhos, e conciliá-los com a nossa vida pré-filhos: trabalho, sonhos, carreiras, independência financeira, etc., mantendo tudo no mesmo ritmo. 

Nos primeiros dias, a sensação que tive é de ser uma equilibrista de pratos. Passei dias e dias no desafio de manter todos os pratos girando na mesma velocidade. Trabalhos domésticos, cumprimento da jornada de trabalho, educação, cuidado e alimentação dos filhos, tarefas da escola, autocuidado, atenção ao meu parceiro, tudo no nível de super-mulher. O resultado era previsível: esgotamento. Depois de uns dias certa de que até poderia sobreviver, mas teria que conviver com as sequelas disso tudo, passei a observar. 

A cada dia, meus filhos me apresentavam um novo mundo, a solução. Presenciei as primeiras palavras ditas pelo meu filho mais novo, e descobri que laranja é sua cor favorita, enquanto meu mais velho gosta do preto. Arthur sentiu confiança para me apresentar seu amigo imaginário, o Max, apelido “véi”, que não come legumes, só gosta de doces e não toma banho. O caçula demonstra suas preferências, batuca pela casa, curte um som. Tem massinha por todos os lados,  esculturas feitas pelo mais velho, e já coleciono desenhos, pinturas e arte para encher uma galeria. Algumas marcas ficarão.

Tenho aprendido que maternidade não é controle, e sim, entrega. É mais aprender que ensinar. É mais simples do que o que nos ensinaram e exigem. É permitir-se viver. Meus dias não são todos “cor-de-rosa”, e isso é também um novo aprendizado. A maternidade é uma montanha-russa, um jogo de videogame, um vai e volta desafiador. E tudo bem… sentirei falta de ver meus filhos convivendo 24 horas juntos, e de estar com eles o tempo inteiro, ainda que eu ainda mantenha o desejo de alguns minutos de descanso.

No domingo, um cartão, com os seguintes dizeres, deixou meus olhos marejados: “Você é a melhor mãe que nós poderíamos ter. Nunca se esqueça disso”, assinado por Arthur e Lucas, meus pequenos “ensinadores”, de 3 e 1 ano.  Mas sou eu quem estou dizendo isso. Eu sou a melhor mãe que eles poderiam ter. E essa é a grande verdade. Nós, mães, nunca podemos nos esquecer de que somos as melhores mães que nossos filhos poderiam ter. Mesmo que um dia cinzento tente nos cegar para que deixemos de acreditar nisso. A verdade é simples, e o verdadeiro presente: somos as melhores mães que eles poderiam ter. 

Feliz Dia das Mães.

 

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Nayane Taniguchi tem 32 anos, é mulher, jornalista, esposa, dona de casa, mãe. Apaixonada pela família e pelos filhos. Ousa brincar, interagir com as palavras e comentar sobre a intensidade da vida real. A maternidade tem sido seu grande aprendizado e lição, que ela compartilha no perfil @pedefralda

 

Muitas Marias apresenta artigos originais sobre o cotidiano feminino. Saiba como enviar seu texto clicando aqui ou escreva para  contato@muitasmarias.com

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