Um bolo recheado de amor

Coloquei um bolo no forno para assar e me fiz um desafio: usar este tempo de espera para falar de minha Mãe… Desafio difícil, pois falar dela é bem mais que um livro.
Ela teve uma infância difícil, perdeu a mãe cedo, morava na zona rural, desde criança já fazia a lida da casa, subia em um banquinho para cozinhar no fogão de lenha com panelas de ferro, lavava as roupas pesadas de seus irmãos, confeccionadas de puro algodão, com dificuldades, pois toda vida foi bem magra. Por essa vida que levava, frequentou pouco tempo a escola, o necessário para aprender a ler e escrever o básico, sem acerto na ortografia.

Brinquedos não teve, mas desde então aprendeu a viver de acordo com sua realidade: suas bonecas eram de sabugo de milho e fazia as brincadeiras de criança da época, cantigas de roda, correr pelos campos e curtir a natureza com o que ela oferecia.
Casou-se aos 17 anos e ficou viúva aos 24 anos, com um filho.

Casou-se novamente e, neste casamento, gerou mais 3 filhos. A bondade e a solidariedade eram sua marca bastante visível. Foi a um velório e notou uma menina de 7 anos de idade, filha do falecido, órfã, não tinha para onde ir, compadeceu-se e a levou para junto de nós. Cinco filhos e uma vida todinha dedicada a eles.
Meu pai exercia a profissão de ferreiro. Ela sempre o ajudou em suas funções. Pintava as peças artesanais e,em cima de uma janela velha de madeira, colocava para secar. Encaixotava em caixas de papelão e íamos (eu era sua fiel escudeira) para Divinópolis entregar as peças. Nós nos hospedávamos em um hotel bem simples, perto da Rodoviária (quantos causos divertidos desse hotel!).
Ela não teve uma vida fácil, ninguém na vida praticou e ensinou-me tanto o perdão como ela.
Muitas vezes me perguntei de onde vem minha força e minha sede insaciável de justiça social, de gostar de ajudar as pessoas, de procurar fazer o bem, meu inconformismo incomodativo de não conseguir ver alguém sofrendo e, recapitulando sua trajetória, sei que foi dela. Lembro que era sua “ moleca de recado”. Ia na “venda” (quitanda para alguns – pequenina mercearia) comprar as coisas e saía falando em voz alta a lista de suprimentos que precisava estar memorizada. Se alguém ofertasse à nossa família algum quitute, necessariamente ela se via na obrigação de mandar algo em troca, que fosse um ovo, ou mesmo um quitute que ela fazia. Quando não tinha nada para retribuir,a frase a mim recomendada eu ainda sei: “ D. Ciclana, minha mãe mandou dizer que não tinha nada de bom para mandar não, mas mandou seu coração”. E o seu coração realmente ia.

Nenhum bem que recebia passava despercebido. Em toda sua vida ela sempre deu a todos seus vizinhos sua prova de amor. Lembro que o dia de “matar porco” era uma festa em minha casa. Eu, como sempre, tinha dó do coitadinho, ainda mais por acompanhar sua engorda – a afeição era inevitável. Todas as carnes nobres do porco eram distribuídas aos vizinhos e para nós sobrava a banha, a pele, a linguiça. Virava e mexia, se ela soubesse que algum vizinho estava doente lá ia eu perguntar se queria sopa, um prato de comida ou se tinha roupas para lavar. Apenas observava aquilo tudo, e aprendia.
Aprendi também o desapego material e meu modo atual de trajar que incomoda alguns pela profissão que exerço. Sua vaidade era normal, amava um batom, o “ pó de arroz”, perfume quando tinha, calçado e vestuário – o básico e necessário. Não era escrava de bens materiais. Seu investimento era outro.
A dor de me ver sofrer e de perder alguém amado acredito que tenha sido forte demais para ela. A guerreira teve um baque (AVC), três meses após o falecimento de minha filha, que quase a vitimou. Ficou por 10 anos acamada, o que não a impedia de dar a cada um de nós seu amor, seu carinho e os cuidados particularizados. Ela sempre esteve presente em nossas vidas e podemos dizer, fomos amados! Tivemos uma infância pobre, logicamente queríamos o que nossos amigos tinham, mas com certeza muitos deles não tiveram nossa riqueza.
Suas lições eu sei de cor. Quisera eu poder me igualar a essa mulher em sua magnitude…
Desafio aceito precisa ser cumprido com rigor. O bolo assou. Que pena! Teria ainda tanta coisa a contar… Quem sabe um dia em um livro….

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Eliana A. Tavares de Faria, mineira da cidade de Formiga, casada, mãe, advogada, com formação acadêmica também em Estudos Sociais e História.

 

 

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