Pelo buraco da fechadura


Há um ditado popular que enuncia “Diz com quem andas que eu te direi quem és.” Em tempo de redes sociais, é possível parafrasear o provérbio: Diga quem você segue e eu lhe direi quem é. No entanto, na verdade, deve se traduzir assim: Diga quem você segue e eu julgarei quem você é. Simples assim, porém lastimável!
Julgar é, além de outros significados, construir julgamento acerca de algo, emitir opinião sobre alguém ou algo, formar conceito. Ninguém é ingênuo a ponto de pensar que o mundo existiria sem julgamento, considerando que é uma faculdade mental humana. Foi dada ao homem por Deus a capacidade de julgar o bem e o mal, o certo e o errado, o feio, o desprezível, o belo, o
encantador.
Fazer um julgamento é tão espontâneo e natural quanto pensar, ou seja, não há mal nisso. Julgar, portanto, não é o problema. E sim o que fazemos com o julgamento. O mal reside na intenção que eu coloco, na malícia! Ademais é importante lembrar que o julgamento que se faz não corresponde necessariamente à verdade.
Hoje se eu me manifestar contrária à agressão da mulher e denunciar tal violência, de forma muito contundente, serei julgada, provavelmente, como simpatizante da causa do Feminismo. Caso eu me empenhe numa ação social, enfatizando a obra de misericórdia corporal de dar pão a quem tem fome, incentivando a ajuda que se deve dar aos pobres, posso ser rotulada como pertencente ao movimento eclesial católico da Teologia da Libertação, que levanta essa questão. Se nas redes sociais eu sigo um amigo, que é militante de um partido político, facilmente serei interpretada, no mínimo, como pessoa favorável às ideias daquele partido.
No Brasil tem-se vivido, infelizmente, um clima de polarização, termo tão usado recentemente, em função das duas forças político-ideológicas antagônicas que se estabeleceram no país. Nesse cenário, lamentavelmente, não tem havido espaço para relação e diálogo verdadeiros e desinteressados, apenas hipocrisia, ofensas e rótulos.
Penso como atualmente somos julgados o tempo todo. Não digo apenas pelos sistemas, mas também uns pelos outros. Antes de toda criticidade e coerência, que deveriam estar presentes, antecipa-se o simples ato de julgar, com base nos critérios que a sociedade moldou.
Muitos de nós estamos no banco dos réus e nem sabemos, sem direito a contraditório nem ampla defesa. Como assim?
Explico.

O mundo prega que se você é um católico que se preza não deve ler um autor protestante, e vice-versa. Se você considera-se de direita, não pode seguir um autor com ideias socialistas, mesmo discordando delas. Entende? Se você defende a integridade física da mulher, então precisa defender seu direito de abortar, mesmo sendo a favor da vida. Percebe?
Certos valores, tão intrínsecos ao ser humano, não precisam estar vinculados a uma causa, a uma ideologia ou a um partido político, para serem defendidos. Não se precisa ser feminista para se manifestar contrária à violência que a mulher sofre, seja ela rica ou pobre, estrangeira ou não. Assim como se deve denunciar a violência contra o homem, o embrião indefeso, o idoso, ou seja, toda vida humana.
Por que rotular? Não se pode enxergar o interior de um quarto pelo buraco da fechadura. Muitas vezes é o que é feito. O ser humano é complexo, tem a alma inacabada, por isso não pode ser rotulado. Não se pode simplesmente viver preocupado com os rótulos que estão sendo atribuídos, nem tampouco viver rotulando as pessoas ao redor.
As Sagradas Escrituras afirmam, em Apocalipse 3, 15, que Deus rejeita o morno. É louvável que se expresse quente ou frio e assim agrade o coração de Deus, porque o morno representa o omisso, o que se isenta, o oportunista, e a Palavra nos ensina, acima de tudo, que não há meio termo entre o bem e o mal, entretanto, o julgamento superficial que se faz das pessoas gera afastamento, calúnia, difamação. A radicalidade desse julgar chega a exterminar amizades, abalar relacionamentos, destituir cargos, minar oportunidades e até gerar perseguições e mortes.

É preciso lembrar a liberdade que o Criador deu a cada um. O grande desafio é como usá-la. Fazer o bem, denunciar o mal, prezar pela dignidade e integridade das pessoas, oferecer a mão a quem precisa, defender o próximo da maldade e da injustiça, colocar-se no lugar do outro são exemplos do que é essencialmente bom, independente de haver uma ideologia por trás. No fim das contas é o Senhor que julgará a todos, separando o joio do trigo, conforme a parábola contada no Evangelho de Mateus, no capítulo 13. A tendência é sempre julgar-se o trigo!

Renata_saraiva

Renata Saraiva é brasiliense, casada, com formação em Língua Portuguesa e Literatura. Comunicativa, curiosa, adora arte, fotografia e viagens, mas a maior paixão: os livros. Católica, seguidora de Jesus Cristo, divide o tempo entre a profissão e a missão de servir a Deus. Acredita que um mundo melhor e mais justo é possível.

Muitas Marias apresenta artigos originais sobre o cotidiano feminino. Saiba como enviar seu texto clicando aqui ou escreva para muitasmariasblog@gmail.com

7 comentários sobre “Pelo buraco da fechadura

    1. Concordo plenamente com o seu pensar e expressar Renata! Parabéns, pela profunda reflexão embora em uma forma tão peculiar de expressão dessa realidade tão caótica do mundo em estamos vivendo que nem nos soa assim tão desesperador como na verdade o é !!!!👋👋👋👋

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