“Você é fruto das lutas de seu pai”

Eu não vou falar que esse dia merece ser celebrado todo dia, muito menos como você deve comemorar o segundo domingo de agosto.
Não vou falar dos presentes que eu já dei, como um relógio bonito, um tênis invocado, um celular último modelo ou outras coisas fúteis que meu pai raramente usou, muito menos das diversas vezes que a minha mãe fala para ele vestir uma roupa nova, e ele teima em manter a mesma calça e blusa surradas de sempre.
Não vou comentar que eu já pelejei para levá-lo em uma das minhas viagens internacionais, ignorando que ele raramente vem aqui na minha casinha a uns poucos 800 quilômetros de distância.
Eu vou falar das minhas circunstâncias na relação com o meu pai, que está quase com seus 70 anos tão bem vividos, e do jeito dele. Eu demorei a entender que o Romiro, nascido e criado na roça, preferisse a comidinha simples com arroz, feijão e uma verdura a um prato gourmet super elaborado no melhor restaurante chique da capital do país. Ele me visitou em quase todas as cidades em que morei, mas bem menos do que eu gostaria, pois é apegado à nossa casa, e resistente às mudanças . Talvez eu também seria se tivesse gasto parte da minha juventude, em plena década de 1970 trabalhado anos a fio como metalúrgico no interior de São Paulo, para construir sozinho aquela casa que seria o nosso lar, depois do casamento com a minha mãe. Era a última casinha do novo bairro da cidade, e teve gente que achou absurdo um casal jovem ir morar tão longe, ao invés de alugar um espaço mais perto do centro. Meu pai, seguindo o ditado “quem casa quer casa”, foi lá e construiu o nosso lar que hoje, está no início da principal rua do bairro.
O Romiro namorou a Darci por sete anos, à distância. Eles se conheceram num passeio na roça, e sempre foram muito unidos. Meu pai era um jovem bonito, gente! Se casou com cabelo grande, bigode e calça boca de sino, muito prosa. Era conhecido como garanhão da Alvorada, bairro onde meus avós paternos compraram uma casinha quando se mudaram para a cidade.
Para você ter uma ideia, meu pai não tem nem o ensino fundamental completo, mas ensina muito para essa filha com pós-doutorado.❤️

 

Esse cara tem uma fé piedosa muito admirável. Reza o terço todos os dias, acompanha pela tv várias orações, vai à missa aos domingos, faz – e paga promessa. Sabe aquela frase que fala que os exemplos são mais fortes que as palavras? Meu pai fala pouco, e no seu silêncio, fala tanto! Ele perdeu seus pais quando éramos crianças, e lembro do seu choro perto do caixão da minha avó Olímpia, e da sua comoção no velório. Meu avô se foi primeiro, mas eu sinto que ele era muito apegado à mãe e, das poucas vezes que conta histórias de sua infância, tem afeto e brilho nos olhos. Eu não gosto nem de imaginar essa hora na minha história, mas quando imagino, tenho a certeza de que meu pai vive uma vida digna, simples e que semeia coisas boas demais que nunca serão esquecidas.
Este texto traz a minha circunstância, que tem espinhos como toda história, mas eu escolhi ver, ressaltar e valorizar as rosas. Não tenha vergonha dos seus pais. É triste quem maldiz seu pai, como se não tivesse uma dívida pelo simples dom da vida que foi dado por Deus, por intermédio de um pai.

 

A gente se vê pouco, mas se fala bastante, e sempre que escuto suas histórias e novidades de Formiga eu agradeço a Deus porque meu caráter foi forjado com base nesse homem. E saibam que nunca vi meu pai falar mal de alguém, acho que ele tem o dom de ver o defeito, e com sabedoria, se colocar no lugar daquela pessoa, antes de palavra mal dita. E quando algo o faz feliz, ele solta uma gargalhada muito alta e gostosa – contagiante! Sabia que meu pai é bem – humorado demais. Um tempo atrás, minha mãe o flagrou varrendo a horta e cantarolando aquela música do Roberto Carlos “Esse cara sou eu…” Sim, meu pai é o cara, e cultiva com orgulho uma hortinha no quintal de casa, com meia dúzia de diferentes hortaliças. Na primeira vez que levamos nosso cachorro por lá, ele destruiu parte delas, e para a viagem seguinte, ele providenciou uma cerquinha.

Ele não é perfeito, coisa de gente humana, que cai, e não tem medo de pedir ajuda. Meu pai participou dos Alcoólicos Anônimos, e hoje a gente entende que toda a dificuldade faz parte da construção de nossa história.
Ano passado, teve que fazer uma cirurgia, e orgulhoso que só do nosso país, agendou tudo pelo SUS, sistema do qual se orgulha pertencer. Tinha a opção de se operar com um cirurgião particular, graças a Deus, mas ele achou desnecessário – e estava certo (palavra de trabalhadora do SUS).

 

Meu pai é exemplo de hombridade.
Essa palavra não é tão comum hoje, e significa retidão de caráter; dignidade; honradez.
Ele ajudou a erguer a primeira igrejinha do bairro. Participava também voluntariamente dos mutirões para construção das casas para alguns vizinhos e amigos. Lembro de várias manhãs de domingo serem reservadas para ajudar a “bater a laje” para a casa de alguém.
Não tenha vergonha do seu pai. Por várias vezes, meu pai me levava de carona para a escola no caminhão que ele dirigia, e estacionava em frente ao colégio particular mais caro da cidade, onde estudávamos com bolsa. Sim, meu pai se aposentou como motorista de caminhão de uma loja de material de construção, e fizesse chuva ou sol, trabalhava levando e trazendo o que as pessoas compravam – sacos de cimento, pisos, azulejos que ele e um colega descarregavam. Às vezes, meu pai chegava machucado quando uma ferragem atravessava o seu braço ou mão, por acidente. E sempre voltava do trabalho muito sujo, reflexo daquele serviço pesado, debaixo de sol.
Meu pai conhece nossa cidade como a palma da mão, e naquele caminhão, também ficou conhecido. E nos aniversários das minhas coleguinhas de sala, muitas vezes era na garupa da bicicletinha verde que eu ia. A nossa família só teve carro quando eu já estava com 17 anos: um escort hobby usado, da década de 1990, que meu pai conserva até hoje, e que apelidamos de trovão azul.
Várias vezes nos deixou na mão, mas a gente dava era risada.

 

Da roça, ia a pé para a escola, e por um tempo ia descalço, até chegar ao destino, para não gastar o solado do único sapato, nem encher a sala de aula com o barro do caminho.
Não por acaso, minhas lembranças da infância com meu pai são de alguém que era muito exigente comigo e com meu irmão, e não fazia valorizar demais nossa educação. Quando eu chegava com uma nota 9,5; ouvia : “por que não tirou 10, fiota? Você só faz isso.”. Se a reação do meu pai parece dura para você, foi essa busca pela excelência que me motivou, afinal, ele estava certo, sem rodeios. Ele também frisava que só o estudo nos traria uma carreira melhor que a dele.
E quando meu irmão e eu brigávamos, os dois eram castigados, pois na sabedoria do meu pai, irmão devia ser unido. E nem adiantava correr das chineladas… ao redor da mesa da copa era mais fácil ainda ele aplicar um corretivo. Obrigada, pai! Apanhamos poucas vezes, mas as poucas, ensinaram.

 

Nem todo mundo tem um pai de quem se orgulhe, e eu não sei qual é a sua circunstância, mas te digo que, independente de como seu pai te tratou ou te trata, honre este homem e sua história, ajude na velhice dele, cuide que ele tenha saúde. Se seu passado com seu pai foi duro, não precisa ser o melhor amigo dele, e mesmo de longe, assegure que ele tenha uma velhice digna.
Meu irmão e eu somos frutos de cada luta que meu pai teve e ainda tem na vida. Fruto de um lar luminoso e alegre até hoje. E agradeço porque ele me ensinou e me ensina a ser gente. O exemplo dele constrói o meu lar. Você também é resultado das escolhas do seu pai. Que esse dia dos pais seja novo, diferente, de atitude de gratidão sua para com seu pai, onde ele estiver .
Eu agradeço ao meu Pai, por ter me dado meu pai.
Feliz dia dos pais, cara!

 

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