Ao meu pai

(em memória)

O senhor partiu nos meus anos de incompreensão, aqueles dias difíceis nos quais não compreendemos a complexidade da vida e das relações e achamos que tudo é motivo de revolta e melancolia, a tal adolescência. 

Era uma quarta-feira, dia de Crisma. Eu sempre esperava por meus amigos na calçada de casa para que chegássemos juntos à aula. Naquela noite, eu também os esperava, mas para dizer que o meu pai havia falecido. Foi triste, como sempre há de ser esses momentos.

Entrei para o quarto e chorei com o meu irmão Carlinhos, que também já se foi, ao som de “Love in the Afternoon”, da Legião Urbana. “É tão estranho, os bons morrem antes… me lembro de você e de tanta gente que se foi cedo demais…”

É mês dos pais e eu queria dizer que não o tenho em presença física, mas o tenho sempre em meu coração. Sou tão como eras. Sou pedra bruta em lapidação. Tenho seus traços fortes no rosto, embora tenha puxado a cor de minha mãe. Corre seu sangue quente e forte em minhas veias. Sou saudade, afeto, lembranças. Tudo o que me destes e o que guardo em mim impulsionam o meu caminhar.

Sabe, quando o meu filho nasceu, eu vi seus traços, papai. Que emoção! Era seu neto. O neto que você não conheceu, mas sempre ouvirá falar do vovô Zeca. 

Depois de tanto tempo, de passar por mais perdas e dores, eu te entendo tanto, papai! Agradeço sua parceria com minha mãe e o incentivo para que ela viesse batalhar por uma vida melhor em Brasília. Você foi parceiro, compreensivo e incentivador numa época em que os homens não costumavam ser. 

Eu cresci, tornei-me mulher, casei-me com um homem que eu tenho certeza que o senhor aprovaria e, veja só, tive um filho! Um menino levado e esperto que te daria muita alegria, tenho certeza. Ainda lembro de como você sorria em ser meu aluno quando minha brincadeira preferida era ser professora. Ah, pai, essa é a parte dura da vida, ver partir aqueles que amamos. 

Hoje, quando brinco com meu filho, lembro-me do senhor também. E sabe, eu entendo o porquê nossas brincadeiras na hora do jornal o irritavam tanto. Eu entendo você acordar mais cedo, antes de ir ao trabalho, e ligar o rádio para ouvir as notícias. Naquela época eu ficava tão nervosa, pois queria dormir mais um pouquinho antes de ir para a escola. Eu entendo que o senhor não quisesse me levar à escola, afinal, eu já tinha idade de pegar ônibus. Não ser poupado nos ensina mais do que ter tudo nas mãos. Eu entendo que o senhor fizesse vistas grossas quando nós furtávamos suas moedas para comprar doces. Tenho para mim que o senhor já deixava lá para que nós pegássemos. Ah, pai, tem coisas que a gente só compreende quando crescemos… é uma pena que eu não tenha amadurecido aos seus olhos e não tenha retribuído o imenso amor que eu sei que sentias e que eu sinto também. Mas a vida é como é. E esse amor permanece aqui e aí também, eu sei! 

Até breve, papai, a vida passa num instante e logo a gente vai se encontrar para celebrar a felicidade que não tem fim! E sabe, não me entristeço no dia dos pais, porque o senhor está sempre comigo e eu tive e tenho um pai! Eu só queria mesmo te dizer que o nosso amor é para sempre.

Com muito amor, da sua Jujubinha!

juliana moreira

Juliana Moreira é brasiliense de certidão e coração, casada, mãe de um menino, com formação e atuação profissional em direito, mas amante da literatura. Extrovertida e sorridente. Adora conhecer pessoas, viajar, comer bem e desfrutar a vida na companhia de sua família e de seus amigos. Apaixonada por livros. Tem a escrita como terapeuta preferida. Católica que tenta sempre se aproximar mais de Jesus Cristo e aprender dele o bom caminho. Idealizadora do @eumaeleitora

Muitas Marias apresenta artigos originais sobre o cotidiano feminino. Saiba como enviar seu texto clicando aqui ou escreva para muitasmariasblog@gmail.com . 

9 comentários sobre “Ao meu pai

  1. Juliana, minha prima Tio Zeca sempre vai ser guardado na nossa memória pelo seu jeito honesto, digno e que também contribui pelo abrigo de uma de suas irmãs pela sua generosidade, o Tio gostava de fartura, sempre quando vinha aqui ía logo no mercado, nós que somos sobrinhos(digo eu e meus irmãos) sentimos muita falta dele,ele era ludovicense de gema, adorava São Luís, quando Roberto ligou pra dizer a notícia, todos nós choramos .Tio Zeca nunca será esquecido, nós o amamos.um abraço bem forte

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  2. Como voce, sou muito grata a Deus por ter me dado um pai tão grandioso. Ler seu relato, me trouxe deliciosas lembranças dele. Esta saudade que só cresce, este amor que nunca morre….amei seu texto. Beijos =)

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