Sentimentalismo tóxico

Acabei de ler por esses dias o livro ‘Podres de Mimados. As consequências do Sentimentalismo Tóxico’, de Theodore Dalrymple. O autor, na verdade, é um psiquiatra inglês chamado Anthony Daniels, que adotou um pseudônimo para a sua atividade de crítica cultural contemporânea. 

Ele tornou-se conhecido no Brasil quando deu uma entrevista às páginas amarelas da Veja, após as manifestações dos “Sem-iPhone” em Londres, em 2011. Chamaram-no de “profeta” por ter previsto tais fatos. 

A este respeito afirmou Luiz Felipe Pondé na introdução do livro: “quando se conhece a obra de Dalrymple, percebe-se que seu suposto caráter profético nada mais é do que honestidade intelectual associada a uma sofisticada capacidade de análise do comportamento humano e mais: tendo vivido toda a sua vida profissional em hospitais de regiões pobres da Inglaterra, presos, drogadictos e gente que vive há décadas graças ao estado de bem-estar social britânico – portanto, sem trabalhar –, conhece como ninguém o mundo das “vitimas sociais”, conceito que, aliás, ocupa um capítulo inteiro dessa obra crítica que o leitor tem em mãos.”

A obra é uma análise nua e crua de nosso tempo, que é pautado pelo sentimentalismo, tóxico, diga-se de passagem. E o que é isso? Trata-se de uma degradação do caráter moral que tem como combustível o uso dos sentimentos para esquivar-se de responsabilidade contra as dores do amadurecimento e da vida real. Como ele mesmo diz “a “política das vítimas” acabou por se constituir numa desculpa para a incapacidade de enfrentar a vida adulta.”

A análise é profunda e permeia a falácia da “pureza moral”, da exigência de se expressar publicamente os sentimentos para provar-se um ser puro moralmente; do atestado de sinceridade que advém da situação de pobreza, ou seja, da tendência que temos em acreditar em tudo o que uma pessoa pobre diz pelo simples fato dela ser menos favorecida, logo, detentora da verdade. 

Ele fala como as crianças têm sido deseducadas por causa desse romantismo tóxico que está impregnado na sociedade, de modo que os professores têm sofrido para lidar com crianças rebeldes, agressivas ou violentas, pois os pais, ao invés de colaborarem na educação de seus filhos, não permitem que eles sejam corrigidos e muito menos punidos, caso tenham feito por merecer. Em suas palavras, “educar corretamente passou a ser impedir a educação”, visto que alguns métodos modernos de educação coíbem a correção e a crítica.

Mas a obra não se restringe a aspectos de educação, ele vai além, analisa perfis criminosos e nos diz que, curiosamente, ou não, os presos com quem teve contato e que tinham os nomes dos filhos tatuados no corpo, em sua esmagadora maioria, não conviviam com os filhos e não prestavam qualquer suporte ou ajuda a eles. Mas o sentimento estava marcado em suas peles para quem quisesse ver!

Esse sentimentalismo tóxico está entranhado também nas ações estatais mundo a fora, inclusive, nas modernas reformas de linguagem, para não ofender, sempre impedindo que se dê o nome exato das coisas. 

‘A vida como ela é’ é demais para uma geração de homens e mulheres apodrecidos de mimados, que não suportam o peso de suas próprias escolhas e apoiam-se em desculpas e sentimentos para justificar o injustificável, para não arcar com as consequências de suas próprias escolhas.

Se meu conselho vale alguma coisa ele é: leiam este livro! E, resista, caso o seu sentimentalismo o impeça de avançar na leitura porque se viu em suas letras. Tenha coragem de pensar, de ultrapassar a barreira do romantismo e de vencer a degradação moral na qual fomos todos mergulhados.

juliana moreira

Juliana Moreira é brasiliense de certidão e coração, casada, mãe de um menino, com formação e atuação profissional em direito, mas amante da literatura. Extrovertida e sorridente. Adora conhecer pessoas, viajar, comer bem e desfrutar a vida na companhia de sua família e de seus amigos. Apaixonada por livros. Tem a escrita como terapeuta preferida. Católica que tenta sempre se aproximar mais de Jesus Cristo e aprender dele o bom caminho. Idealizadora do @eumaeleitora

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